terça-feira, 18 de março de 2014

Feridas que curam - Yglésio Moyses




Há alguns meses, eu estava andando na beira da praia, distraído, quando um caco de vidro me cortou o pé. Uma "poça" de sangue começou a se formar rapidamente. Saí dali pulando em uma perna só, pois o ferimento era grande, sangrava bastante e naquela hora eu estava sozinho naquela imensidão de praia.

Incrível como nos dias em que você mais precisa, simplesmente você olha para os lados e não enxerga ninguém para te ajudar. Lentamente e pulando, pulando, consegui voltar até a casa da minha tia que ficava ali perto na avenida na praia. Acho que os salva-vidas estavam de greve, porque pulei mais do que "canguru perneta" nesse dia. Socorro!!!

Há algum tempo eu não visitava aquela, passou-se muito tempo mesmo. Com a rotina puxada, tudo vem acontecendo muito rápido e aí fica difícil você ter um tempo para si e para os seus. Família é a coisa mais importante, mesmo isso sendo algo relativamente fácil de esquecer para muitos (e às vezes passo perto desse grupo, pelo jeito).

Chegando lá, prontamente meus tios me trouxeram toalhas e pedi uma bolsa de gelo na tentativa de estancar ou até mesmo diminuir o sangramento. Deu certo! Ufa... Mesmo sabendo que aquela hemorragia estava longe de me matar, acredite, um corte daquele tamanho termina assustando qualquer pessoa.

Fiquei uns minutinhos com o pés para cima enquanto minha tia preparava as coisas para levar-me ao hospital para ser suturado. E aí do nada, Dona Ana, funcionária dela há muito tempo, gritou socorro e meus tios saíram desesperados para ver o que tinha acontecido. Em instantes, ouvi novos gritos:

- Meu filho, corre pra cá!!! Agora !!! Dona Ana desmaiou e vai morrer.

Saí mancando com uma toalha amarrada no pé e ela, aquela pessoa que eu já estava acostumado a ver desde molequinho, subitamente estava ali...parada...

Chequei o pulso e a ausência de respiração e comecei a massagem cardíaca e a respiração boca-a-boca. Pense numa agonia... Que situação, pé direito cortado, amarrado, corpo cansado e uma reanimação ali na minha frente pra fazer. Só depois que passam os eventos e você tem um tempinho, é que você analisa a dimensão das coisas que aconteceram... Cena louca mesmo, mas enfim, retroceder para ver melhor o que se fez sempre é importante.

Continuei ali, por mais 5, 6,7 minutos, nem lembro direito, massageando e ventilando Dona Ana enquanto esperava a ambulância que minha tia havia pedido. Finalmente, os colegas chegaram, intubaram a minha velha amiga e a levaram dentro da ambulância. Terminei pegando uma carona com eles porque eu ainda tinha um corte no pé que precisava ser suturado.

Quando chegamos no hospital, colocaram-na no respirador, fizeram os exames e constataram que ela tinha um AVC ( o popular "derrame"). Não era um AVC tão grande, felizmente. Quanto a mim, já impossibilitado de colaborar com os colegas, fui levado para a sala de sutura e ,ai, ai, ai, não gosto nem de lembrar daquela agulha danada da anestesia. Foram 14 pontos no meu pé chato....

Quanto à dona Ana, ela conseguiu (depois de uns dois dias na UTI) sair do respirador e foi progressivamente melhorando. Passaram-se dois meses e pode-se dizer que hoje ela encontra-se bem e quase totalmente recuperada, para a felicidade de cada um de nós que a conhecemos. Meu pé também ficou bem suturado, com os pontos já retirados e a cicatriz, digamos, bem "bonitinha".

Pensando nisso, depois de um bom tempo, não posso deixar de pensar que existem feridas na vida que te levam para lugares que você há muito havia se afastado, mas que são muito importantes, guardam muitas boas lembranças e que uma visita sua, seja por qualquer motivo, pode fazer uma grande diferença.

Eu cortei meu pé naquele dia e praguejava internamente a minha suposta falta de sorte, mas ao mesmo tempo, os cacos de vidro no caminho me levaram de volta para perto de minha família, família essa que me ajudou da melhor maneira que podiam, trazendo toalhas,gelo e especialmente: carinho.

Aquele corte no meu pé, no meu pé preferido, me enfraqueceu momentaneamente, mas não foi suficiente para me fazer parar de caminhar. Fosse andando ou pulando, o que importa foi que cheguei a tempo e sem planejar num lugar que há muito não ia, a tempo de reanimar alguém que parecia esperar pela minha chegada....

Provavelmente, tive ali naquele dia um dos meus pontos mais altos de ajuda ao próximo. Um corte pequeno no meu corpo, uma ferida no meu pé principal, um episódio inusitado na minha vida provavelmente trouxeram de volta à vida , naquele dia, uma pessoa tão querida para mim...

Hora de pensar em reclamar menos das pequenas feridas e guardar cada cicatriz com todo o orgulho do mundo... Hora de pensar que não existe lugar certo, nem acontecimento ruim, só existe nossa incapacidade momentânea de aceitar o caminho e de seguir em frente sem olhar tanto para trás...

Hoje eu vejo: o importante é seguir em frente e em paz…



Yglésio Moyses  é Médico e Professor Universitário, ex diretor do hospital municipal DJalma Marques.  
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Jornalista Abimael Costa

Clinica Santo André

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