segunda-feira, 31 de março de 2014

No país do "lepo-lepo"




*Jesus Santos

Não é correto pensar que a ignorância se concentra aqui ou ali prioritariamente. Nossa péssima educação, nossa sensibilidade domesticada, nossos órgãos de cultura politizados e decadentes estão nos levando à deterioração da nossa identidade contemporânea, arrastando junto nossa maneira de ser.

Existe uma "insinuação" sem caráter, que desde mil novecentos e trinta perturba quem pensa como brasileiro, já algo difícil, se notarmos que vivemos de modelo em modelo importados, sempre com vontade de sermos o que jamais seremos. Bem apregoado por nossa religião colonizadora com santos e malandros que não trabalham, não produzem, mas, sendo "filhos de Deus" herdarão o Reino dos Céus.

No Rio de Janeiro, uma lei municipal inteligente - coisa raríssima no Brasil - permite o grafite em paredes, tentando iniciar um diálogo de identidade com a população.

Arte sempre foi uma coisa distante e complicada para todo ignorante. Somos um povo que, quando muito, consegue decodificar códigos de linguagem da comunicação oral e da escrita, já que sem ela não comemos, nem ganhamos, nem bebemos ou deixamos de ir ao banheiro, e, ainda assim, apesar da mímica, não nos permite sobreviver a contento. A música envolve, encanta, eleva, quando além do ritmo, associamos a melodia nos permitindo fantasiar tudo que nos parece emocional. 

A dança é uma extensão do corpo, e o teatro uma revisão da vida. Nas artes plásticas complica um pouco! É nas artes plásticas que esperamos reeditar o destino da fotografia, assim é comum ouvir que um artista é bom porque o que ele faz é igualzinho, igualzinho a uma fotografia. 

Nossa preguiça e nosso despreparo emocional não nos permitem simplesmente contemplar, ao invés de "olhar", perceber, ao invés de ver. Nós queremos que a criação do artista tenha antes existido em nosso mundo pessoal, antes mesmo da materialização feita por ele, e assim nos prevalecemos com nosso "bom gosto" e nosso "conhecimento" sobre a obra, usando como lastro emocional o que aprendemos no modelo de nossa sensibilidade colonizada.

Existem dois tipos de sensibilidade. Uma percebe e decora essaacontece com os repetidores de texto e declamadores de "versos". Ambos não criam coisa alguma, limitam-sea remediar ideias e intenções, emocionados pelo que não fizeram, mas gostariam de ter feito, assim sãoos intelectuais. Os artistas corrompem, transgridem, submetem a mesmice a uma nova forma, à outra identidade.

Para desprestigiá-los usaram a lenda do artista párea de uma sociedade preconceituosa e racista que se alimenta de valores miúdos e se dá por satisfeita com a inveja. O artista pensa e se comunica em uma linguagem imperceptível para uma sociedade sem informação, sem educação, sem leitura, sem convívio ou identidade.

Dessa forma, arte é uma coisa de museu. E onde nem museu há, é então algo distante, que não interessa, e feita por marginais, no mais amplo sentido da palavra. Nós, os doutores, os intelectuais Google, somos o "sal da terra", tanto que ocupamos o mais alto grau de nosso conhecimento, o empreguismo público.

O grafite desmascarou as artes do museu e trouxe para as ruas a emoção dos artistas contemporâneos, uma vez que não é só no MASP, no MAM, no Louvre - ou na "caixa prego" - que a arte se guarda para os olhos privilegiados. Todo intelectual mal preparado, daqueles que se atribui mais do que realmente é, considera arte um texto ilustrativo de sua "obra", fornecido gratuitamente porque o que um intelectual não entende, não existe.

A Prefeitura do Rio de Janeiro estáde parabéns pela inteligência! Contudo, atualmente, esbarra nas patas dos diretores do Jóquei Clube. Lá os grafites tratados como pichação, apesar de enriquecerem a paisagem, estão sendo apagados sob camadas de tinta. A cidade inteligente grita e reverbera, mas o Estado de lá, como o daqui, trabalha em função do anonimato das pessoas e da sua identidade de época, que no momento se restringe ao "lepo-lepo".

Jesus Santos
malazartes50@hotmail.com
30/03/2014 

Texto publicado no Jornal O Estado do Maranhão, caderno Alternativo de domingo 30/03/2014
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