domingo, 6 de abril de 2014

Barbárie avança, turba sem controle - Populares matam quatro em São Luis



São Luis registra quatro mortos vitimas de linchamento em uma semana

Justiça com as próprias mãos

*Abimael  Costa

A ilusão de que a justiça com as próprias mãos e atos de justiçamento possam trazer a paz social e o fim da violência, tem levado alguns a praticar crimes contra vida. Auto intitulando se justiceiros estas pessoas prendem julgam condenam e executam as vitimas, supostas suspeitas de praticas criminosas.

Até sexta-feira (04), os executados pela fúria popular eram rotulados como bandidos, marginais, estupradores, ladrões. Muita gente aplaude sempre que um suspeito é morto por este tribunal, parte da imprensa apoia e até incentiva tais atos criminosos, louvando tais execuções. Ontem a vitima deste tribunal tão aplaudido e elogiado por muitos,  foi um cabo da Polícia Militar, de 45 anos de idade.

Diante deste crime bárbaro e hediondo que vitimou o policial militar, Josilmar Moraes Lobo (45), fica claro que os motivos das execuções sumarias são outros. Com a palavra os defensores dos linchamentos e as autoridades que tem o dever de manter a ordem e garantir o pleno cumprimento das leis em um Estado Democrático de Direito.

Mais um caso de linchamento em São Luis, com este sobe para quatro o numero de mortos vitimas de linchamento em menos de uma semana na capital Maranhense.

Desta vez a vitima foi o cabo da polícia Militar do Maranhão, identificado como Josilmar Moraes Lobo, 45 anos de idade.

Segundo testemunhas o policial estava embriagado e participava de uma festa, quando teria se envolvido em uma confusão com um jovem de 22 anos, identificado como Dalmacio Sousa Santos, durante a confusão, o policial disparou vários tiros contra Dalmacio que morreu ainda no local.

Revoltados com a atitude do militar e alegando que o jovem era pessoa muito querida na comunidade, conhecido de todos e que não teria envolvimento com nenhum tipo de crime, populares perseguiram o policial e o mataram a pedradas, pauladas e tiros.

O linchamento aconteceu por volta das 23h da ultima sexta-feira (04), na localidade Rio Grande, na região do Maracanã.

Um outro caso de linchamento aconteceu no bairro Cohab Anil I, por volta das 20h, desta quinta-feira, (3). A vítima foi identificada como Severo dos Campos Lopes, de 25 anos.

A vitima teria sido agredido a socos, pontapés e pedaços de madeira pela população, pois ele teria roubado uma pessoa no Terminal de Integração da Cohab.

Ainda na tarde de quinta-feira (3), um assaltante foi amarrado e agredido por populares no Monte Castelo. Ele não morreu por conta da intervenção policial. Uma viatura da PM chegou ao local e levou o homem para a delegacia.

Na quarta-feira (2), um adolescente de 16 anos foi encontrado morto, na Vila Luizão. Ao lado do corpo foi encontrado pedaços de madeira com manchas de sangue.

No início da semana, mais precisamente na segunda-feira (31 de março), uma pessoa foi agredida a pauladas e pedradas, no bairro Sá Viana. Ele era suspeito de violentar uma criança.

* Abimael Costa é jornalista, blogueiro e assessor de imprensa
jornalistaabimaelcosta@gmail.com


Reflexões sobre linchamentos em praça pública


Nas profundezas da alma humana reside aquele troglodita que, todos imaginamos, foi domado por séculos de civilização. Mas ele está lá, vivo e arfante, esperando um descuido, um pequeno descuido da nossa nem sempre atenta consciência, para romper esse verniz de boa convivência social que às vezes é tão tênue que chega a ser translúcido.

Sempre que um linchamento se anuncia, vivemos um daqueles momentos graves e tristes, em que os camponeses incultos, achando que podem alcançar a justiça com suas próprias mãos, deixam escapar seus monstros interiores, que emergem luzidios da baba viscosa do fanatismo, profundamente cegos (porque o que estão prestes a fazer exige completa cegueira) e alimentados por recalques ancestrais e sentimentos rasteiros de vingança que estavam adormecidos.

Com as tochas fumegantes das trevas nas mãos, marcham ensandecidos em direção a outros monstros que pretendem justiçar. Não lhes interessa mais, a essa altura, ouvir qualquer palavra que não seja “mata, esfola, decapita, castra, trucida!” Está em curso um processo conhecido, que assim como as erupções vulcânicas, lembra à parte civilizada da humanidade o terror que se oculta sob a crosta terrestre.

Nem sempre os linchamentos destroem a vida de quem, no instinto tosco e monocórdico da turba, “merece morrer”. Porque a multidão de zumbis enfurecidos, cegos e embriagados de ódio, não tem como distinguir o bem do mal, o claro do escuro, a luz das trevas: é um rinoceronte em desabalada carreira. Não vê um palmo diante do nariz e é capaz de se espatifar numa parede, mas não consegue mudar de direção nem parar. Dificilmente cumpre, de fato, o destino que aqueles que tentam justificar sua fúria procuram: destruir os verdadeiros culpados por alguma coisa que, no minúsculo cérebro da malta, seria grave o suficiente para justificar toda a desgraceira.

Não raro os justiceiros somam ícones que gostariam, no íntimo, de destruir pelos mais diversos e ocultos (ou não) motivos à inicialmente justa indignação por um crime gravíssimo, diante do qual todos os seres humanos concordam que precisa haver esclarecimento rápido e severa punição dos culpados.

Aí, sob a justificativa nem sempre inverídica de que a justiça é lenta, que seus agentes podem ser comprados e que, afinal, não se fará justiça, permitem que seus ogros interiores aflorem, reunindo-se a outros, urrando e batendo no peito, com esgares que pedem sangue e morte a qualquer preço, como se isso fosse sinônimo de justiça.

Sem qualquer dúvida ou contemplação, condenam sumariamente todos que alguém, por algum motivo (verdadeiro ou falso, não importa), acusou de serem autores do fato hediondo. E acreditam, os linchadores, que todos os seus próprios crimes serão perdoados porque têm, no seu ódio, um propósito ancestral de “justiça”: olho por olho, dente por dente.

Achar que talvez não seja o melhor caminho cometer crimes hediondos para punir autores de crimes hediondos é muita sofisticação, exige um nível de inteligência incompatível com a descerebrada massa de vingadores. Também não adianta falar na necessidade da correta apuração de responsabilidades. Querem apenas divertir-se com o circo em que essas execuções em público acabam se transformando, desde a pré-história.

Claro, quando a turba se volta contra algum de nós, por causa de algum dedo apontado em riste em nossa direção, vamos querer que os mecanismos que a civilização inventou para conter os monstros sanguinários sejam acionados. Mas aí, quem sabe, pode ser tarde demais. A multidão, vocês sabem, se acostuma rapidamente ao gosto e ao cheiro do sangue alheio. E o fato de alguém ser ou não ser culpado de verdade, não vem ao caso. Não interessa. A condenação se deu lá no primeiro momento, naquele instante em que alguém disse: “foi o fulano, eu sei que foi ele”. E se não foi ele? Azar. Não tem como escapar. Por isso se chama barbárie.

E, como sempre, em situações como essa, de absoluta insanidade, conversas como esta, que estou fazendo aqui, em defesa de condutas civilizadas, serão interpretadas, por vários cabeças de motim, como uma defesa de criminosos. E não será de admirar se parte da turba resolver me incluir no rol daqueles que serão atropelados no seu caminho sem volta em direção ao cadafalso.

E o que estimula esse comportamento selvagem é a falta de um poder público com credibilidade. Autoridades que se encolhem, enfiam a cabeça na areia e fogem de suas responsabilidades. Cagões que têm medo de sair em defesa da lei. Que não querem ficar mal com a turba enfurecida, mas também se esforçam para agradar algum poderoso eventualmente envolvido. E, covardemente, correm da raia, deixando um rastro malcheiroso e nojento.

Sempre que, em situações semelhantes, quem tiver a nobre tarefa de defender a lei se omitir, estará dizendo aos cidadãos que eles estão por conta própria. Esse é o recado que, tal qual um despertador de vuvuzelas, faz acordar a besta. E a lei, que deveria ajudar a resolver os conflitos que surgem todos os dias na convivência dos humanos, acaba rasgada, pisoteada e enlameada pelos fanáticos que trotam em busca de suas vítimas. Como se, da idade da pedra até hoje, não tivéssemos aprendido nada. E, enquanto continuarmos ignorando a lei, continuaremos patinando no glaciar eterno da barbárie.


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