sábado, 12 de abril de 2014

Maria Aragão, nossa HEROÍNA



Nos cinquenta anos do golpe militar, uma mulher maranhense, negra e pobre é simbolo de resistência


Reportagem especial sobre Maria Aragão - 11/04/2014 -

Passados exatos cinquenta anos que os militares através de um famigerado golpe tomaram o poder no Brasil, interrompendo a democracia de forma violenta e autoritária e impondo em seu lugar uma ditadura violenta e cruel, que censurou, perseguiu, prendeu, torturou e matou centenas de inocentes pela pratica de um único crime, defender a democracia e lutar pela liberdade de expressão e de pensamento.

Muitos nomes se destacaram nesta luta contra a opressão e a ditadura em todo o Brasil, homens e mulheres sacrificaram suas vidas em nome de um bem maior, a democracia. Entre estes nomes, destaca-se uma mulher, pobre, negra e maranhense. Com uma história de vida dedicada inteiramente a luta contra a opressão dos poderosos, ela sempre esteve ao lados do menos favorecidos, sua garra luta e determinação fez a diferença para muitos brasileiros, seu nome ocupa lugar de destaque na história como exemplo de determinação e altivez.

É lamentável que apenas uma pequena parcela de maranhenses e brasileiros conheçam a historia desta grande figura que faz parte de nossa história recente de lutas contra os poderosos opressores que historicamente tolhem as raras oportunidades de pobres e negros disputarem em pé de igualdade a ascensão social através de uma educação de qualidade.

A mulher guerreira de que tanto falamos é Maria José de Camargo Aragão, a Maria Aragão, ela sem duvida é uma rara e bela exceção, já que tudo ao seu redor conspirava contra ela, Maria Aragão, reunia todas as características e condições para ser apenas mais uma, bravamente ela foi superando um a um os obstáculos até se tornar a grande heroína de todos nós.

Maria José de Camargo Aragão nasceu em 10 de fevereiro de 1910 no Engenho Central, hoje Pindaré-Mirim, interior do Maranhão, uma das principais áreas de conflitos de terras no estado. Terceira em uma família de sete irmãos, seu pai, Emídio Aragão, era guarda-fios da Companhia de Telégrafos, descendente de africanos e sua mãe, Maria José Camargo Aragão, mesmo sendo analfabeta, foi decisiva na educação e formação dos filhos. Foi dela a iniciativa de fixar residencia na capital para assim poder dar um estudo de qualidade para os filhos, certa feita ela teria dito aos os filhos, “a fome só vai desaparecer desta casa se vocês estudarem.

A família vem para São Luís, onde Maria Aragão conclui o curso primário, faz o exame admissional e vai estudar no Liceu Maranhense, a mãe queria que ela cursasse o Normal que era a formação para professores e ela queria fazer o ginasial que dava direito a prestar vestibular. Vale lembrar que quase todas as mulheres da época optavam pelo curso Normal para exercerem a profissão de professoras. O argumento da mãe de Maria Aragão era que: "Se você fizer i curso de professora, você pode ensinar e é muito mais fácil arrumar um emprego para você e aqui deixa de haver fome". enfatizava Maria Camargo, já que muitas vezes não tinham nada para comer em casa, e Maria Aragão nunca levava lanche para a escola, no horário de recreio, enquanto todos saiam da sala, ela continuava la, aproveitava para subir no banco e estudar geografia no mapa pregado na parede. 

Maria Aragão faz o curso Normal, conforme era vontade sua mãe, é aprovada com aluna brilhante e de destaque, graças as muitos esforços de sua mãe que colocava os filhos para estudar a noite e os acordavam na madrugada sempre no cantar do galo, para estudarem novamente. Maria Aragão, fez em seguida o curso ginasial em dois anos, uma espécie de supletivo que dava direto a prestar vestibular, já que alimentava o sonho de ser médica. 

Doente, a mãe de Maria Aragão precisa de cuidados médicos, e Carlos Macieira indica um medico no Rio de Janeiro, em julho de 1934, ela chega ao Rio com a mãe que morre pouco tempo depois. Após a morte da mãe, ela decide então começar o curso de medicina, decidiu cursar Medicina na antiga Universidade do Brasil, (hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro). Sem recursos, Maria Aragão enfrenta inúmeros sacrifícios, mesmo passando todo tipo de privações, dormindo apenas três horas por noite e passando muita fome,  ela não desiste e segue obstinada e focada em seu objetivo maior que era concluir o curso de medicina. Ela decide então que tem que trabalhar, começa dar aulas de português, é e com o esse dinheiro que ela consegue sobreviver, em 1936, no segundo ano do curso, de tanto passar sono e fome, Maria Aragão fica doente e quase desiste do curso.

A formatura aconteceu em 12 de novembro de 1942, agora já medica pediatra, Maria Aragão vai trabalhar no Rio Grande do Sul, onde enfrenta um grande preconceito por ser mãe solteira, já que ela tem uma filha, tempos depois Maria Aragão sofre novo golpe, a filha morre vitima de uma epidemia e ela entra em depressão, abandona o trabalho e volta ao Rio de Janeiro. Desde então ela abandona a pediatria e passa a atuar  na ginecologia.

Em 1944 volta a trabalha, desta vez no Hospital Miguel Couto, neste mesmo ano possa a frequentar reuniões do Partido Comunista, ao participar do histórico comício de Carlos Preste no Estádio São Januário, fica encantada com a figura e a fala do líder comunista, ali ela decide entrar no Partido Comunista.

Em 1945 Maria Aragão retorna ao Maranhão, com objetivo de organizar e fortalecer  o Partido Comunista  no estado. Logo ela desenvolve intensa atividade politica, com muitos comícios, escrevendo e distribuindo jornais e panfletos, além de manifestações nas portas das fabricas, neste período o partido chega a ter 2.600 filiados.

Não tardaram a surgir as perseguições, padres a chamavam de "besta fera," quando Maria Aragão chegava aos municípios em suas muitas viagens ao interior do estado, os padres mandavam tocar o sino  a dobre de finados. 


Como médica, Maria Aragão, durante muito tempo atendeu de graça,  ia a casa dos pacientes e estes só pagavam sua despesa de transporte, pois ela não tinha dinheiro sequer para pagar o bonde, andava muito a pé Montou um consultório em sua residência, mas recebia muito pouco pelas consultas, em 1970 consegue uma vaga na Liga Maranhense de Combate ao Câncer, hoje Fundação Antonio Jorge Dino que abriga o Hospital Aldenora Belo, além disso, atendia também no Posto de Saúde do bairro do João Paulo. Posteriormente, foi convidada a dirigir o Centro de Saúde do bairro do Anil, ambos municipais. 

Mesmo durante o período em que vigorou a ditadura militar de 1964-1985 -, ela não abandonou a medicina, sua sagrada missão, fazendo desta uma bandeira de luta. Entre as muitas passagens críticas nesse período, a mais humilhante foi ter que atender pacientes em seu consultório, cercada por policiais. Filiou se ao PDT devido a grande admiração que nutria por Leonel Brizola.

Foi presa pela primeira vez em 1951, durante a revolta popular contra a politica de Vitorino Freire, na época Maria Aragão dirigia o Jornal "Tribuna do Povo", que fazia duras criticas a Vitorino. Em dezembro de 1965, foi presa novamente, desta vez no 24º BC, em maio de 1973 foi presa mais uma vez, levada pela Polícia Federal para Fortaleza, onde foi brutalmente torturada, foi solta em 08 der março de 1978.

Maria José Camargo Aragão, faleceu em São Luis aos 81 anos de idade, em 23 de julho de 1991, milhares de pessoas participaram do velório e do enterro de Maria Aragão, durante o percurso entre a Assembleia Legislativa - onde o corpo foi velado - e o Cemiterial do Gavião, artistas maranhenses cantaram as musicas que marcaram a trajetória vitoriosa de nossa heroína.   

Com o objetivo de manter vivo o ideal de luta contra a injustiça e a desigualdade social, um grupo de amigos de Maria Aragão, decidiriam criar o Instituto Maria Aragão, criado oficialmente em 09 de fevereiro de 2001, o Instituto visa desenvolver atividades e apoiar ações em defesa dos direitos humanos,além de organizar acervos de dados relacionados a história e á memoria das lutas sociais e politicas no Maranhão.

Em 11 de setembro de 1997, o então deputado federal Haroldo Saboia, apresenta o projeto de criação do Memorial Maria Aragão, apresentado a Oscar Niemeyer, ele acatou a ideia, e desenhou planta do memorial. Inaugurado em 25 de junho de 2004, o Memorial abriga um vasto espaço para manifestações populares e artísticas, com palco, camarins e jardins, além de uma sala de um auditório e sala de exposições, onde fica exposto o acervo de Maria Aragão.


Maria Aragão deixa um legado de coragem, desprendimento e determinação, em uma época de fortes preconceitos e discriminações, ela sai de Pindaré Mirim, como mulher, pobre e negra, família de sete irmãos, supera inúmeros obstáculos, torna se médica e defensora dos pobres e oprimidos, exerce importante papel no combate a ditadura militar e no enfrentamento aos poderosos. 

"O ideal socialista continuará a germinar no coração dos homens enquanto houver injustiça, desigualdades, discriminação, miséria, analfabetismo, doença e fome, que justifiquem a luta por uma sociedade libertária e fraterna, sonho que acompanha a humanidade desde seus primórdios e viverá conosco até o instante final de nossa civilização." MARIA ARAGÃO


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