sexta-feira, 24 de junho de 2016

O primeiro São João maranhense



Por: Antonio Noberto

  *Antonio Noberto
Quem vê a alegria e a riqueza do São João do Maranhão dos dias atuais, não imagina o quanto foi diferente da primeira vez que os maranhenses se manifestaram e se apresentaram para o mundo no dia de São João, fato ocorrido no dia 24 de junho de 1613, em Paris. O período junino é uma herança que nos orgulha e enche os nossos olhos, além de um convite ao visitante para ver de perto as manifestações, o colorido das indumentárias, a alegria contagiante e a degustação de uma das mais ricas culinárias. A diversidade de ritmos, sotaques e sons do bumba-meu-boi; as danças e a percussão do tambor de crioula, recentemente contemplado como patrimônio cultural imaterial brasileiro; o cacuriá; as quadrilhas; a dança do Coco; a dança do Lelê e várias outras revelam a diversidade e a riqueza cultural deste estado que já foi pioneiro, muito empreendedor e, consequentemente, um dos cinco mais ricos e importantes do Brasil nos anos mil e oitocentos. O primeiro São João maranhense não teve a marca da irreverência das manifestações populares atuais, mas a pompa do luxo e da homenagem à realeza. Isso aconteceu quando os tupinambás do Maranhão foram enviados à corte francesa por Daniel de La Touche e conduzidos pelo Lugar Tenente-General Francisco de Razilly, primo do futuro cardeal de Richelieu e pelos frades capuchinhos. A cerimônia aconteceu no dia de São João de 1613 no então Palácio do Louvre, hoje o maior museu do mundo.

Os anais dos antecedentes daquele memorável cenário nos mostram uma colônia recém iniciada no Maranhão, que precisava do apoio da coroa francesa para se manter viva e cumprir os objetivos propostos pelas lideranças. Para conseguir os resultados era preciso demonstração do que por aqui se passava, e isto demandava mais do que palavras e documentos, era preciso mostrar à corte a evolução da colônia no norte do Brasil e celebrar definitivamente o pacto da aliança franco-maranhense. Os chefes da colônia conheciam muito bem a máxima do marketing: uma imagem vale mais que mil palavras. E eles o fizeram com maestria. Levaram um nativo de cada região da França Equinocial, que começava no Ceará e se estendia até o Pará. Dos sete índios que foram levados à França três morreram, provavelmente, vítimas do frio boreal e de infecção pulmonar. São eles Caripira (entre 60 e 70 anos de idade) era da nação dos Tabajaras vindos da Serra Grande. Respeitado guerreiro, venceu mais de 20 batalhas. Viajou à França recomendado pelos seus pares de Uçaguaba (atual Vinhais Velho). Recebeu o nome cristão de François (Francisco). Foi o primeiro dos três índios a morrer em solo gaulês e foi enterrado no convento dos Capuchinhos, em Paris. Patuá (15 a 16 anos), originário da Ilha Grande, onde seu pai era um dos principais. Adoeceu no mesmo dia da morte de Caripira. Faleceu após 8 dias de febre. Batizado Jacques (Tiago) por pedido do Senhor Du Perron. Faleceu no dia 06 de maio de 1613. Manén (20 a 22 anos). Natural da “terra dos Cabelos Compridos – vizinha do Amazonas – que habitavam a oeste, ao longo de um bonito rio chamado Pará”. Recebeu nome de batismo de Anthoine (Antonio), por sugestão do senhor Beauvais Nangis. Outros três tiveram melhor sorte, pois além de sobreviverem e participarem da solenidade do dia de São João prestando honras ao rei menino Luís XIII e à rainha regente, receberam vestes e presentes reais, casaram-se com mulheres francesas e retornaram com toda pompa ao Maranhão. Eles foram batizados com nomes franceses e receberam o nome do rei, Luís. Itapucu “Barra de ferro” (38 anos, aproximadamente). Natural da Ibiapaba. O pai dele era o principal de Caietê. A partir da viagem exploratória de Daniel de La Touche às Guianas, em 1604, passou a viver como um verdadeiro aventureiro francês, cruzando o Atlântico várias vezes em direção à Europa. Itapucu fez brilhante discurso diante do rei Luís XIII, quando do imortalizado evento do dia 24 de junho. Segundo Abbeville, este nativo era um dos “melhores instrumentos na conversão dos seus semelhantes”. Recebeu o nome cristão de Louis Marie. Uaroio (22 anos). Natural do Mucuripe (hoje Fortaleza), onde o pai Uirao Pinobonich “Pássaro azul sem penas na cabeça” era o principal de sua aldeia. Tinha a pele mais clara que os demais índios, de rosto “mais parecido ao de um francês do que ao de um selvagem”. Recebeu o nome cristão de Louis Henri. Japuaí (perto de 22 anos). Natural da Ilha Grande. Filho de Tangará “Casca de Ostra”. Foi batizado com o nome cristão de Luís de São João, por ter sido batizado no dia 24, dia de São João. Um quarto índio, um tapuia chamado Pirauauá (Luís Francisco), de 12 anos, escravo dos tupinambás da Ilha Grande, ficou na França “empregado nos serviços do rei”.

A partida da Ilha Grande aconteceu no dia 1º de dezembro de 1612. La Touche e o frei Arsênio de Paris acompanharam a embarcação que levava os tupinambás até o dia 8, quando retornaram para São Luís após despedidas, lágrimas e um tiro de canhão disparado pela embarcação da missão, que chegou em Paris no dia 12 de abril de 1613 e logo eternizada pelo famoso poeta Francisco de Malherbe. Era tão grande a multidão querendo ver os nativos que os padres tiveram que fechar as portas do convento. Segundo o padre Claudio de Abbeville “moveu-se toda a cidade de Paris, mostrando-se todos contentes”, afluindo para o convento franciscano da Rua de Santo Honorato. Vinha gente distante vinte léguas para ver e participar daquele momento onde os nativos da nova colônia francesa no Brasil se tornaram a grande novidade. Depois disto o senhor de Razilly os conduziu ao Louvre para a grande cerimônia. A seleção de convidados foi rigorosa a ponto de muitas pessoas importantes da corte francesa terem sido impedidas de participar. O cenário majestoso e bem iluminado do salão real, o teto alto, as paredes com toda sorte de quadros e gravuras francesas, flamencas, italianas, os móveis, as louças, os enfeites, e uma turba de cortesãos e curiosos, tudo isso não chegou a intimidar o trio nativo. O mais fluente deles, Itapocu, em nome dos maranhenses, proferiu ao rei um belo discurso que a todos encantou. A cena do batismo passou para a história imortalizada pelas mãos de Frans Pourbus - o Jovem, de Antuérpia, um dos maiores pintores da Europa daquele início de século.

A primeira comemoração de São João por maranhenses pode não ter sido uma festa popular nos moldes atuais, mas sem dúvida não poderia ter sido mais deslumbrante e majestosa. Muito provavelmente nenhum outro fato na história francesa tenha tido tanto protagonismo e badalação de maranhenses quanto o que ocorreu naquele 24 de junho de 1613. Ao menos, foi o evento mais documentado e imortalizado de todos os tempos. Apenas no século dezenove é que soprariam os bons ventos da terra das palmeiras, com Gonçalves Dias e outros escritores e poetas. 

Seguir o exemplo de outras gerações de maranhenses, que desprendidas de xenofobias e preconceitos, com um norte definido e sempre olhando para o progresso, souberam produzir e fazer do Maranhão e, principalmente da sua capital, um lugar destacado e empreendedor, onde a riqueza, o conhecimento e a civilidade coexistiam e se congraçavam, esse parece ser um dos nossos grandes desafios.

*Turismólogo e membro-fundador da Academia Ludovicense de Letras - ALL
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