Idade não é nada. Respeito é tudo!

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quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Perdão, menino guajajara!



- Jacqueline Heluy -
Um menino da nação indígena guajajara morreu. Ele só tinha 6 anos. Conhecia a mata e se sentia seguro no seu habitat. Mas, enquanto caçava passarinhos na manhã de domingo, foi surpreendido pelas labaredas de um incêndio que há dias queima sem piedade a reserva Bacurizinho, em Grajaú. Acuado pelo fogo e sem ter como escapar, o garoto teve 95% do corpo carbonizado e morreu em um hospital de Imperatriz.

A morte do indiozinho teve pouca repercussão. Só tomei conhecimento hoje à tarde, no site do CIMI. A notícia pareceu saltar da tela do meu computador e como lança senti rasgando a garganta, causando-me dor intensa.

Tristeza ou revolta? Não sei ainda definir muito bem. Só sei que o impacto da notícia até poderia ser menor se neste domingo eu não estivesse justamente em uma das aldeias da nação guajajara, encantada pela pureza de cada uma daquelas crianças. Triste ironia!

E foram três dias de intenso aprendizado. Com os índios da aldeia Lagoa Quieta, em Amarante, aprendi lições de solidariedade, respeito às tradições dos antepassados e amor à natureza. Conheci na exata medida o quanto é bom e saudável viver com simplicidade.

Descobri, também, que tudo o que sempre disseram do lado de cá sobre os índios são falácias, certamente propagadas por escravos do capitalismo desenfreado que só conseguem enxergar uma árvore como fonte inesgotável de dinheiro para enriquecer madeireiros. E nada mais.

Para os povos indígenas árvore é vida e rio é fonte de alimento.

“Os índios são preguiçosos”. Quantas vezes já ouvi essa frase sussurrada como um mantra. Hoje posso atestar: não, índio não é preguiçoso. Quando um índio sente fome vai ao rio e pesca ou então entra na mata e caça o alimento. Ele não trabalha para comprar bens e acumular riquezas, mas para sobreviver.

E quando o índio retorna da caçada o alimento é compartilhado com todos da aldeia. Coisa que não vejo acontecer nas bandas de cá.

“Os índios são perigosos, agressivos”. Outra falácia perversa. A experiência que vivenciei por três dias desmascara esse conceito. Na aldeia Lagoa Quieta não fui recebida com hostilidade. Muito pelo contrário, fui muito bem acolhida. Eles me hospedaram em suas casas e me cederam suas redes de dormir. A Sonia Guajajara preparou e me serviu o mais saboroso feijão verde com abóbora que já tive o prazer de comer.

Há informações oficiais de que os incêndios são provocados por jagunços a mando de madeireiros, que insistem em querer se apossar das reservas indígenas somente para derrubar árvores que sustentam um comércio bastante rentável.

Recuso-me a acreditar que humanos estejam sacrificando vidas humanas em nome de um capitalismo desenfreado e criminoso.

Não sei muito bem o que dizer neste momento. Só sei que um indiozinho guajajara morreu queimado, acuado como um bicho dentro da mata.

Essa morte está doendo muito em mim, mas preciso pedir perdão.

Perdão, menino guajajara. Perdão por toda maldade e preconceito. Perdão pela ganância daqueles que tentam expulsar a tua gente do próprio habitat e, possivelmente, tenham causado a tua morte.

Perdão por nossa omissão!
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