terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Crime de homofobia que vitimou professor de dança em Chapadinha ganha repercussão nacional



O crime homofóbico que chocou o município de Chapadinha e região, está repercutindo em todo o Brasil. O assassinato do professor de dança Klesmildo Silva, 31 anos, atacado a golpes de faca e enforcado com cadarço de tênis, segundo depoimento do suspeito, foi motivado pela revolta do assassino com os comentários que circulavam na cidade dando conta da existência de um relacionamento amoroso entre os dois. O secretário de comunicação do município de Chapadinha, jornalista Luiz Eduardo Braga, escreveu excelente texto sobre o caso, o portal RevistaFórum também se manifestou sobre o crime.


DESCULPA, KLESMILDO

Por: *Luiz Eduardo Braga

Não queria voltar a tratar da tragédia que vitimou nosso amigo Klesmildo, mas só hoje ouvi a entrevista concedida pelo seu assassino confesso, Fábio Silva.

Na noite que chocou todos nós, quando ainda estávamos em frente ao prédio onde tudo aconteceu, havia quem estivesse nas redes sociais se apressando em dizer que o homicídio não tinha qualquer relação com homofobia. Antes até das imagens das câmeras chegarem à polícia, a pressa era para espantar qualquer “vitimismo” porque nosso amigo teria sido assassinado por alguém que “partilhava dos mesmos gostos e peculiaridades”.

Talvez nunca saberemos o que realmente motivou ato tão odioso, brutal e covarde contra Klesmildo. O que passa na cabeça de um assassino, para mim, é um mistério. Imagino que seja necessário muito ódio e/ou muito desprezo pela vida humana para alguém dar tantas facadas em outra pessoa e depois ainda enforcar com um cadarço. Inexplicável e injustificável.

A versão apresentada por Fábio para explicar sua ação é que a vítima estaria espalhando na cidade que eles tinham um caso. “Foi só os boatos que ele espalhou. Fui pedir para ele parar com essas histórias porque estava todo mundo tirando onda com a minha cara, [fazendo] chacota”, disse o assassino, afirmando ainda ter sido assediado antes de desferir a primeira facada.

Mais à frente ele volta a justificar. “Isso pega mal para mim. Todo mundo me conhece aí na rua. Vai ficar todo mundo tirando onda com a minha cara. Não tava dando certo. Eu tava de cabeça quente. Já tava cheio disso aí lá no campo onde eu jogo bola. Todo mundo jogando piadinha pra cá, piadinha pra ali. Eu só acumulando aquilo dali”.

Você consegue imaginar a entrevista de um assassino contando ter matado uma mulher porque ela andaria por aí dizendo eles tinham um caso? Não, independente deles terem tido alguma relação íntima ou não, o medo de ser tratado como alguém de outra orientação sexual que não aquela tida como normal para a sociedade é a justificativa do assassino na entrevista.

Esclarecer o que é orientação sexual? Ensinar a tolerância e até a falta de importância da sexualidade alheia? A isto chamam agora de “ideologia de gênero”, o novo falso inimigo criado como espantalho para avançar a agenda conservadora. Enquanto o tabu sobre a sexualidade não for quebrado, continuaremos vendo tragédias como esta. Se alguém é homossexual, bissexual ou heterossexual, só interessa a essa pessoa e a quem ela se relaciona.

No fim do último relacionamento que tive, Chapadinha foi tomada por boato similar ao desta história. Por mais de uma pessoa fui perguntado se era verdade que minha ex-companheira havia terminado a relação por ter descoberto que eu seria secretamente homossexual. Nunca abri a boca em público para me defender da mentira porque, mesmo se fosse verdade, não seria algo desonroso.

Porém, quando vemos tragédias como esta ou quando uma mãe mata e queima o corpo do próprio filho por ele ser gay, ou quando figuras públicas são atacadas por fotos de afeto com outras pessoas do mesmo sexo, nós percebemos que este está virando o país da intolerância. É necessário levantar a voz e lutar para mudar os valores de uma sociedade que está tomada pela banalização da vida.

Desculpa, Klesmildo, por sermos a sociedade para a qual o seu assassino se pronuncia com esta fala entendendo que ela, de alguma maneira, justifica o que ele fez contigo. Desculpa por ainda darmos tanta importância à sexualidade alheia, desculpa por ainda exigirmos demonstrações constantes de virilidade dos homens, desculpa por alimentarmos ódio e a intolerância.

Que no futuro as pessoas entendam que alguém ser hétero ou gay é tão relevante quando ser destro ou canhoto e que assassinos como este não encontrem mais na homofobia lugar para justificar seus atos.

*Jornalista e secretário municipal de comunicação em Chapadinha-Ma 


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