domingo, 1 de outubro de 2017

Ser honesto não basta - Gastão Vieira


"Honestidade não deveria ser, por si só, uma credencial para a vida política. Ela é básica e, como tal, fundamental, mas precisamos de mais. O Brasil precisa de ética aliada à eficiência para dar a volta por cima"

Há seis anos eu assumia o Ministério do Turismo, poucos dias depois de a Polícia Federal prender 36 pessoas entre colaboradores do MTur e outros acusados de fraudar um convênio de R$ 4,4 milhões.

O cenário, a exemplo do que ocorre num nível macro com o Brasil hoje, era de crise de confiança. Os servidores se recusavam a assinar documentos fundamentais para o andamento da máquina pública. A mídia fazia o seu papel e esmiuçava os arquivos do ministério atrás de novas irregularidades.

Adotamos a estratégia de focar na gestão e na transparência para dar segurança a todos – servidores, gestores públicos de outras esferas e sociedade. A velha política pressionava por cargos e para manter práticas pouco ortodoxas que faziam sangrar os cofres públicos.

Foram momentos difíceis em que figurões, hoje presos ou listados entre os acusados de participar da Operação Lava Jato, tentavam operar no MTur. Usavam de todos os meios para continuar com o esquema.

Resistimos, montamos uma equipe técnica, com o mínimo de interferência política. Optei por valorizar os servidores do próprio ministério. Implantamos uma série de ferramentas que estreitavam o diálogo com os órgãos de controle e permitiam que qualquer cidadão acompanhasse a execução orçamentária da pasta de forma simples, sem burocracia, pela internet no site do próprio órgão.

Como resultado do freio de arrumação e das medidas voltadas para a melhoria da governança, pouco mais de dois anos depois da minha posse, o MTur foi o único órgão do governo a ganhar dois prêmios no Primeiro Concurso de Boas Práticas da Controladoria Geral da União. O reconhecimento veio nas duas categorias existentes: ações inovadoras de controle interno e promoção da transparência.

Conseguimos reverter o quadro e transformar o Ministério do Turismo em referência em gestão. Ganhamos credibilidade e, com isso, conseguimos um reforço orçamentário com a criação do PAC Turismo, no valor de quase R$ 700 milhões, três vezes o orçamento atual da pasta.

Em todas as regiões do país, iniciamos a construção ou a reforma de centros de convenções, equipamentos fundamentais para o turismo de negócio e para gerar emprego e renda no setor. Saímos das páginas policiais e fomos para as de economia.

Hoje, ao assistir o noticiário e, como toda a sociedade, ficar estarrecido com a dimensão e o estrago causado pela corrupção no Brasil sou acometido por um misto de sentimentos dúbios.

Por um lado a tristeza ao ver que a nossa maior empresa pública foi saqueada e, por outro, a felicidade em saber que conseguimos blindar o Ministério do Turismo dos desmandos que assolaram o país.

A resistência que montamos foi eficiente e o MTur não é sequer citado na denúncia do Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, mesmo ela tendo como foco o PMDB, partido do qual eu fazia parte.

As malas de dinheiro, os diálogos que escancaram a corrupção nas mais altas esferas da administração pública e as prisões de políticos renomados geraram a supervalorização de princípios elementares. Ética, correção e responsabilidade deixaram de ser características básicas e passaram a ser um diferencial dos homens públicos.

Honestidade não deveria ser, por si só, uma credencial para a vida política. Ela é básica e, como tal, fundamental, mas precisamos de mais. O Brasil precisa de ética aliada à eficiência para dar a volta por cima.

Gastão Vieira, ex-deputado federal e ex-ministro do Turismo
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