sábado, 10 de setembro de 2016

São Luís antes da fundação


Por: *Antonio Noberto


Dizem que não é possível reconstituir o passado na forma exata como aconteceu. A assertiva pode ser frustrante para alguns, mas não para aqueles movidos pelo vírus da ciência e da curiosidade, que o propulsiona na busca das melhores fontes que acabam por transformar um mundo distante e inatingível em uma realidade bem próxima e ao alcance de todos.
Foi com esse ânimo de “transformar o caos em cosmo” e objetivando mostrar neste momento oportuno o protagonismo do Maranhão naquele período pré-colonial, que os aspectos e fatos relevantes dos primórdios da Upaon Açu de franceses e tupinambás foram alvos da investigação que permitiu visualizar aquele distante período compreendido entre os fins dos mil e quinhentos até a chegada da esquadra francesa de Daniel de la Touche em 1612. Lembra-se que àquela época o Brasil setentrional era completamente abandonado pelos portugueses, no território que se estendia da povoação de Natal, no Rio Grande do Norte, até a região amazônica, que no dizer do ilustre historiador maranhense João Lisboa, no Jornal do Tímon: “era um completo abandono (...) e os donatários régios de Portugal e Espanha estavam incorrendo nas penas de comisso”.

detalhe do mapa holandês atribuido a Franz Post. A seta azul aponta para a localização do forte de São Francisco, antigo forte Sardinha dos franceses
Abandonada a região pelos lusos, desde a primeira metade dos anos mil e quinhentos os gauleses da Bretanha e da Normandia se apresentavam como os maiores frequentadores da Ilha do Maranhão, sendo ilustrativa a carona que os sobreviventes da grande expedição de Aires da Cunha, naufragada em 1536 no litoral maranhense, pegaram com os franceses para retornar à Portugal, pois estes é que faziam do Maranhão o principal locus de apoio à intensa movimentação existente entre o Amazonas e os portos franceses de Rouen, Dieppe, La Rochele, Saint Malo, Cancale e Havre de Grace. No final daquele século eles começaram a se fixar na Ilha Grande. O naufrágio da esquadra do capitão Jacques Riffault por volta de 1594 no Golfão Maranhense foi determinante para a ocupação, que ali edificou uma feitoria (le comptoir) nas imediações da Ponta da Areia. Muitos náufragos e novos moradores da Ilha se amasiavam com as índias e iam residir nas aldeias, que totalizavam vinte e sete, conforme a descrição do escritor capuchinho Claude Abbeville.

Detalhe do plano da barra do Maranhão datado de 1789. Carta nº 182 do catálogo: Mapas e planos manuscritos relativos ao Brasil colonial (1500 - 1822);
Um importante porto ficava na baía de Guaxenduba, no local aproximado onde se encontra a estátua elevada a São José, no núcleo fundacional de São José de Ribamar. Por este passavam as riquezas da terra escoadas pelo rio Itapecuru Mirim, seguido de portos menores como Jussatuba, Quebra Pote e Arraial, que davam suporte ao ancoradouro maior daquela região. O porto principal da Ilha àquela época, no entanto, era o de Jeviré, na atual Ponta da Areia, elo de culturas diferentes e de riquezas e amizades que enlaçavam ainda mais a relação histórica e harmônica franco-tupi já existente em quase todo o Brasil. Enquanto o promontório onde La Ravardiére levantaria o forte São Luís (atual Praça Pedro II) permanecia vazio e intocado, uma outra elevação próxima dali abrigava a que seria, a primeira fortaleza do Maranhão, na localidade conhecida como Sítio Sardinha, na região onde está o bairro do São Francisco, a Ilhinha e parte do Renascença.
vista atual do Porto da Ponta da Areia, antigo Jeviré, a partir da elevação onde existiu o forte Sardinha imagem aproximada).

O nome Ilhinha, aliás, sugere o óbvio, que toda aquela região formava uma pequena ilha, pois margeada por um lado pelo Igarapé da Jansen, que no início dos mil e seiscentos ficou conhecido como rio da Olaria, que se juntava a Lagoa, ao Renascença e ao Jaracati, até se encontrar com o rio Maioba ou Cutim, que mais tarde receberia o nome de rio Anil, ao pé da ponte Bandeira Tribuzzi. A pequena ilha era o abrigo ideal contra invasões, pois enquanto dificultava qualquer ataque inimigo, permitia escape para o interior da Ilha Grande em direção à aldeia de Uçaguaba, que se tornou a Miganville do tradutor francês David Migan, primeira povoação europeia do Maranhão e de toda a região. O Forte Sardinha, edificado em local estratégico, elevado e fronteiro ao porto de Jeviré, dava proteção a este ancoradouro (onde atualmente acontece desembarque de quem chega de Alcântara), à feitoria implantada pelo capitão Jacques Riffault e pelo imediato Charles d’Esternou des Vaux, e à povoação onde residia o tradutor e parente do governador de Dieppe, David Migan, no atual Vinhais Velho. E vigiava também a entrada do rio Anil, principal via aquática para o interior da Upaon Açu.

A rústica, porém, importante fortaleza foi edificada pelos franceses deixados pelo capitão Jacques Riffault e outros que já moravam no lugar, sendo Charles Des Vaux, Du Manoir, David Migan, Guérard, Roussel, Adolphe de Montville e centenas de outros. Era desse lugar que partia o protagonismo francês para outras regiões como a Amazônia e a serra da Ibiapaba. Foi deste pequeno núcleo maranhense que uma equipe liderada por Charles des Vaux e Adholphe de Montville partiu para criar um povoamento na Serra Grande, onde hoje está a cidade de Viçosa do Ceará, pois os mesmos tinham laços de amizades com os indígenas daquela região. Sobre esse momento o escritor cearense Gilton Barreto na sua obra História, fatos e fotos de Viçosa do Ceará (Fortaleza, 2006) escreveu que “Por volta do ano de 1590, estabeleceram-se na Serra Grande franceses provenientes do Maranhão (...) Deu-se ao lugar um certo perfil urbano com alinhamento de casebres e ruas, dentre estas a Rua de Paris (...) e a Rua Pedra Lipse...”. Deste longínquo período restaram naquele lugar as duas ruas mencionadas. A última delas dá acesso à Igreja do Céu, no topo da montanha e um dos lugares mais visitados de Viçosa e da serra da Ibiapaba.

Em 1607 o jesuíta Luiz Figueira, acompanhado do frei Francisco Pinto, subiu à citada serra e, após o assassinato deste último pelos índios tacarijus, recebeu informações dos selvagens que retornaram do Maranhão para a Ibiapaba. Ele as anotou assim na sua conhecida Relação do Maranhão: “... acerca dos franceses que tínhamos por novas que estavam assentados com duas fortalezas feitas em duas ilhas na boca do rio Maranhão”. Uma destas era o Forte Sardinha (le fort Sardine), felizmente registrado em mapas do período colonial, em uma elevação, próximo onde foi construído nas últimas décadas do século passado o edifício residencial Malibu, ponto inicial da rua que se encontra com a rua das Paparaúbas, importante logradouro do bairro São Francisco. O quartel francês era comandado por um português, que emprestou seu nome ao forte, e trabalhava para bretões e normandos. Foi ali defronte, no porto de Jeviré, que a esquadra fundadora aportou em 1612. 

Poucos meses depois, o então ativo complexo bélico-portuário-comercial sob a proteção do Forte Sardinha foi esvaziado e substituído pelo momento oficial estabelecido no Maranhão da França Equinocial pelos generais La Ravardière e Razilly. O primeiro conjunto de leis das américas, promulgado na Praça do Forte no dia primeiro de novembro de 1612, que previa pena de morte, dentre outras coisas, não permitia desobediências dos antigos ocupantes franceses do pequeno reduto, pois tudo e todos estavam sob as ordens do reino da França. Alguns permaneceram na Ilha à serviço do rei, sob as ordens do governador Daniel de la Touche. As ações, a partir de então, migraram para o novo locus no promontório mais alto onde a cidade de São Luís foi implantada, na atual praça Pedro II, local escolhido pelos novos senhores da terra para levantar a cidadela de São Luís. O porto Santa Maria (hoje porto da Praia Grande), nome que homenageava a Mãe de Deus e à rainha regente Maria de Medicis, já ocupava o status de porto principal da Ilha do Maranhão.

Segundo Abbeville e Yves d’Evreux os alvos da colonização migraram para o interior da nova colônia e para o Amazonas, onde La Touche de La Ravardière, acompanhado de De Bault e De la Blanjatierre, foi à terra dos caetés, atual Bragança-PA, passando pela localidade onde futuramente seria edificada a cidade de Belém, até Cametá, avançando em direção à região onde, séculos depois, foi edificada a cidade de Imperatriz. Imagens e informações relativos a esse período podem ser conferidos na Exposição França Equinocial, em cartaz na Casa de Cultura Huguenote Daniel de la Touche, no Centro Histórico de São Luís.

Os momentos de glória e de protagonismo da pequenina ilha que abrigava o sítio Sardinha ainda não haviam acabado, pois foi ali, naquele lugar que aconteceu a rendição de Daniel de la Touche às forças comandadas por Alexandre de Moura, quando o general La Touche, descobridor das Guianas e fundador de São Luís, assinou a rendição e entregou ao vencedor as chaves da cidadela. O importante evento aconteceu no dia 3 de novembro de 1615. Um dia antes Alexandre de Moura preparou um documento prévio para La Ravardière assinar, que começava assim: “Aos dois dias do mez de novembro de 1615 annos, na Ilha de São Luiz, onde habitão os francezes, e no lugar do quartel de S. Francisco, que chamão o Forte do Sardinha, apareceo perante mim o senhor Daniel de la Touche...”. Logo em seguida Moura pôs o nome de São Francisco naquele sítio, que se estendeu ao bairro estabelecido aos fundos da construção. Passado mais de um século a fortaleza foi reconstruída em pedra pelo governador e escritor Bernardo Berredo.

Considerando que a França Equinocial compreendia metade do Brasil atual, estendendo-se do Ceará ao Amazonas, esse evento de passagem das chaves da fortaleza de São Luís, de mãos francesas para mãos portuguesas, representa um dos acontecimentos mais importantes da América de todos os tempos, pois ali estava sendo decidida a sorte de metade do território brasileiro. A monta do evento demanda a elevação de um monumento no local, como sugeriu, em meados do século passado, o professor e escritor Rubem Almeida ao jovem estudante Salvio Dino, hoje escritor e acadêmico da AML. O turismo regional agradecerá a iniciativa.

*Escritor, membro-fundador da Academia Ludovicense de Letras onde ocupa a cadeira nº 1, curador da Exposição França Equinocial.
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