terça-feira, 2 de maio de 2017

Quem são os gamellas: “Cortar o arame pra libertar a terra”



"Crescem de maneira descontrolada criminalização, execuções sumárias, “limpeza do território” intimidando as comunidades locais e afastando-as de regiões visadas pelo grande capital, por fazendeiros, madeireiros e megaprojetos extrativos. A impunidade dos crimes contra defensores de direitos humanos reforça um clima de imposição violenta dos interesses dos mais fortes, vingança e pistolagem." Missionários Combonianos do Brasil

"O governo do maranhão já havia sido avisado da situação conflituosa na região e do risco de acontecer um massacre, mas, ao que consta até o momento, nem a polícia havia sido deslocada até a área para tomar as medidas cabíveis. Preocupa-nos ainda o alto índice de violência contra os povos e comunidade tradicionais do Maranhão. Atualmente, há cerca de 360 conflitos no campo no estado, destes, somente em 2016 foram registradas 196 ocorrências de violência contra os povos do campo. 13 pessoas foram assassinadas e 72 estão ameaçadas de morte." Comissão Pastoral da Terra Regional Maranhão (CPT-MA),

Reproduzimos abaixo notas sobre o massacre do povo Gamela, divulgadas por diversas entidades, como: Comissão Pastoral da Terra Regional Maranhão (CPT-MA), Missionários Combonianos do Brasil, bispo da diocese de Viana (MA), dom Sebastião Lima Duarte, Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), e o Partido Socialismo e Liberdade no Maranhão - PSOL


A luta pelo território Gamella remonta aos tempos do Brasil colonial. Depois de travar forte resistência aos invasores portugueses em seu território, onde sempre ofereceram abrigo a escravos que fugiam das fazendas, em 1759 o Rei de Portugal reconheceu uma área para os indígenas e a demarcou com quadro pedras. Elas ainda estão lá, mas nos anos 1960 e 70, grileiros e latifundiários, com posse de títulos falsos, começaram a lotear o território indígena e a cercá-lo com arame.

“A gente trabalhava tudo liberto. Onde a gente achava que tinha que botar o roçado a gente fazia, os animais ficavam tudo solto, não tinha necessidade de prender. Aí eles começaram a fazer rumo, cortar, dividir e vender. A gente achou que não era assim e que devia resistir”. Quem conta essa história é F. uma, velha liderança indígena que está na luta desde 1971.

Hoje os Gamellas promovem a retomada deste território, ocupando fazendas, cortando o arame e libertando a terra para o usufruto comum da comunidade. “A retomada está dando alguma liberdade para a comunidade porque nós já pode andar aqui, e nesse tempo não se podia”, explica o velho indígena.

Muitas áreas do antigo território encontram-se degradadas. Há buracos feitos por toda parte para a extração comercial de argila. O eucalipto também tomou conta de algumas áreas. Até um imenso lixão ocupa parte do território. “O chorume do lixão, além de tá contaminando o lençol freático, tá contaminando o nosso igarapé. Nosso prefeito e governador não tão nem aí. Os doutô tão de braço cruzado, né”, explica uma jovem liderança Gamella.

Os Gamellas também realizam ações para libertar os juçarais (açaizais) nas comunidades de seu território. A juçara (açaí) é um alimento muito consumido nessa região, mas cercas foram levantadas para impedir que a população possa extraí-lo. Acompanhados por crianças, mulheres e homens da comunidade, os indígenas cortam cercas, inclusive elétricas ao alcance das crianças, e avisam todo mundo que juçaral foi libertado e que todos podem usufruí-lo. É uma verdadeira festa. “Essas áreas tá cheio de cerca elétrica. Essas comunidades tem o campo e o baixo [juçaral] como lugar essencial para a reprodução da vida”, explica K., líder Gamella.

No ano passado, a imprensa divulgou um plano dos fazendeiros para matar as lideranças indígenas, entre eles estava K. “É viver ou morrer, com nosso corpo e com nossa alma. Se quiser matar, pode matar, mas daqui a gente não sai”, sentencia o velho líder indígena.

Indígenas do povo Gamella no Maranhão foram atacados por pistoleiros neste domingo no Maranhão. Três foram baleados gravemente e encaminhados para hospitais na capital São Luís. Outros dois ainda aguardavam na aldeia a escolta policial para se dirigirem aos hospitais de Olinda Nova do Maranhão e Viana.

“Foi uma situação terrível. A gente foi fazer mais uma retomada e fomos atacados por pistoleiros e por fazendeiros”, conta uma das lideranças indígenas que pede para não ser identificado. “Foi um ataque, não foi nem confronto, porque a gente já estava recuando da área quando a gente foi atacado”, disse.

“Estamos preocupado porque ainda pode haver ataque na retomada. Na verdade, esse ataque estava preparado há dias. O pessoal na Assembleia de Deus, o deputado [federal] Aluísio Mendes [PTN], ontem foram na rádio dizer que somos falsos índios, ladrões… E hoje eles fizeram uma reunião grande pela ‘paz’, mas todos armados e bêbados para nos atacarem”.

O povo Gamella não vai se intimidar com esse ataque covarde, promete. Ele lembra das sábias palavras do cacique Chicão Xucuru: “acima do medo, a coragem”. “É isso que a gente vai reafirmar e nos preparar para avançar”, disse a liderança.


Estamos arrancando nosso futuro

Nota dos Missionários Combonianos sobre a violência contra o povo Gamela

Os Missionários Combonianos do Brasil repudiam o ataque brutal contra o povo indígena Gamela, que provocou 13 feridos, dois em estado muito grave, no município de Viana-MA.

Há anos atuamos no Maranhão em defesa dos povos indígenas e, através da rede Justiça nos Trilhos, assessorando comunidades e povos atingidos pelos grandes projetos de mineração.

Junto à CPT, ao CIMI e a diversas entidades e movimentos sociais, denunciamos o aumento da violência no campo.

Crescem de maneira descontrolada criminalização, execuções sumárias, “limpeza do território” intimidando as comunidades locais e afastando-as de regiões visadas pelo grande capital, por fazendeiros, madeireiros e megaprojetos extrativos. 

Paralelamente, há um desmonte do Estado de direito nessas periferias do País. FUNAI e INCRA estão cada vez mais fragilizados e inativos; do Governo Federal vêm sinais de flexibilização das leis ambientais e de progressivo desamparo dos povos tradicionais. 

A impunidade dos crimes contra defensores de direitos humanos reforça um clima de imposição violenta dos interesses dos mais fortes, vingança e pistolagem.

As comunidades que tentam defender suas raízes, tradições ancestrais e vínculos com o território –lembremos entre outros no Maranhão a luta orgulhosa por demarcação das terras quilombolas, os guardiões da floresta Ka’apor, a resistência da comunidade de agricultores e pescadores de Cajueiro- são desamparadas pelo poder público e desvalorizadas em seu esforço de afirmação cultural e étnica.

Os povos indígenas são solução, e não entrave ao desenvolvimento do País!

Em sintonia com inúmeras entidades e organizações do Maranhão, do Brasil e do mundo estarrecidas por esse aumento da violência, participando hoje também da audiência pública convocada na capital do Maranhão na sede da OAB, como Missionários Combonianos solicitamos urgentemente:

- investigação por autoridades federais, com prioridade de tramitação, acerca dos crimes e punição a todos os responsáveis pelos fatos, incluindo o incentivo à violência pelo deputado federal Aluisio Guimarães Mendes Filho (PTN/MA) e investigação independente sobre eventuais responsabilidades da Polícia Militar do Estado do Maranhão e sua posição durante o conflito entre fazendeiros, jagunços e indígenas;

- intervenção da Polícia Federal para garantir proteção aos índios Gamela;

- a prestação de assessoria jurídica gratuita às vítimas;

- imediato oferecimento dos serviços públicos de proteção a vítimas e testemunhas e de defensores/as ameaçados;

- instalação pela FUNAI de um Grupo de Trabalho para a identificação e demarcação do território tradicional Gamela;

- instalação de uma força-tarefa permanente, com participação do Governo do Estado, da FUNAI, do INCRA e demais órgãos federais para retirada de posseiros e supostos proprietários de terra na região que será demarcada;

- denúncia do caso à Relatora da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas e ao Fórum Permanente de Assuntos Indígenas das Nações Unidas, através da Rede Eclesial Panamazónica e do CIMI, atualmente reunidos em New York com uma delegação de representantes de povos indígenas do Brasil;

- acompanhamento permanente da sociedade civil e da aliança interétnica dos povos indígenas do Maranhão a esse conflito.

São Luís do Maranhão, 02 de maio de 2017


Dom Sebastião denuncia violência contra povo indígena Gamela na diocese de Viana (MA)


A situação do povo indígena Gamela, no povoado de Bahias, município de Viana (MA), vítima de uma investida de homens armados de facões, paus e armas de fogo que resultou no ferimento de 15 pessoas, cinco em estado grave, no último dia 30 de abril, quando decidiu-se retirar de uma área retomada, foi assunto de Coletiva de Imprensa que a CNBB realizou, no 1º de Maio, no Centro de Eventos Pe. Vítor Coelho de Almeida do Santuário Nacional de Aparecida-SP.

O bispo de Viana (MA), dom Sebastião Lima Duarte, disse que a situação se agravou após o processo de organização para retomada da terra colocado em curso pelo povo Gamela. Este povo chegou a ser considerado extinto, perdendo traços de sua cultura e língua. Há três anos, após um processo de organização popular acompanhado por organismos como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e outras organizações, os indígenas resolveram assumir a sua identidade e organizar-se para a retomada de suas terras.

Segundo o religioso, há documentos e registros, inclusive da Universidade Federal do Maranhão, que comprovam que a terra foi doada aos indígenas ainda no período do Império. O processo de regularização da terra indígena se encontra parado em Brasília e no Incra. Na área, inclusive, segundo dom Sebastião, existem também acampamentos de Sem Terra.

Presença pastoral

A área foi ocupada por fazendeiros, entre eles uma juíza federal e o próprio vice-prefeito de Viana. Uma agente das Pastorais Sociais da diocese de Viana foi destacada, pelo bispo, para ir ao local e fornecer informações mais apuradas sobre o caso. Entre os feridos, há casos de indígenas que tiveram suas mãos decepadas. Cinco indígenas, que tiveram ferimentos mais graves, foram levados para hospitais em São Luis (MA). Os outros foram atendidos em hospitais da região.

Dom Sebastião denuncia a morosidade para resolver esta situação e o que considera “ausência do Estado”. O bispo de Viana pede maior presença da Secretaria Estadual de Direitos Humanos e também do governador do Maranhão, Flávio Dino para resolver definitivamente a questão.

O bispo disse que os indígenas estão proibidos de colher os frutos de sua própria terra, como o coco de babaçu e o açaí. Há no Maranhão, segundo o bispo, um processo de reorganização dos povos indígenas e quilombolas para retomada de suas terras e reafirmação de suas culturas. “A Igreja está ao lado destas lutas por mais dignidade. Na Semana Santa celebrei a Páscoa nesta comunidade”, disse o bispo.



NOTA CPT MARANHÃO: Povo Gamela sofre ataque premeditado de fazendeiros contra suas vidas e lutas

A Comissão Pastoral da Terra Regional Maranhão (CPT-MA) vem a público denunciar mais um ato brutal de violência contra a vida dos povos da terra, que desta vez atinge os indígenas Gamela, organizado em seu território no Povoado de Bahias, município de Viana, Maranhão.

Na tarde deste domingo, 30 de abril, o povo Gamela sofreu um grave ataque contra suas vidas e sua luta em defesa de seu Território. Nesta ação, mais de 10 indígenas foram feridos, entre quais, três estão internados em estado grave em Hospital de São Luís. Aldeli Ribeiro Gamela foi atingido por um tiro na costela e um na coluna, e teve mãos decepadas e joelhos cortados. O irmão dele, José Ribeiro Gamela, levou um tiro no peito. O terceiro foi o indígena e agente da CPT/MA Inaldo Gamela, atingido com tiros na cabeça, no rosto e no ombro.

Essa violenta ação aconteceu quando os indígenas decidiram sair de uma área tradicional retomada, prevendo a violência iminente. Dezenas de pistoleiros armados com facões, armas de fogo, e pedaços de madeira atacaram os Gamela no momento em que deixavam o Território. Para se protegerem, muitas pessoas correram e se esconderam na mata.

Não mais suportando a violenta invasão ao seu Território, os indígenas intensificaram sua luta e decidiram por retomar seu Território sagrado. Todavia, em contrapartida, a empreitada criminosa dos que querem ver os indígenas extintos vem tomando força e ficando cada vez mais explícita. Denunciamos, neste contexto, que a ação criminosa e violenta ocorrida neste domingo foi planejada e articulada por fazendeiros e pistoleiros da região, que, através de um texto no Whatsapp, convocavam pessoas para o ataque contra os indígenas.

O governo do maranhão já havia sido avisado da situação conflituosa na região e do risco de acontecer um massacre, mas, ao que consta até o momento, nem a polícia havia sido deslocada até a área para tomar as medidas cabíveis. Indigna-nos os discursos de incitação ao ódio, racismo e a violência sistemática contra os povos indígenas, o que foi feito pelo deputado federal Aluisio Guimarães Mendes Filho (PTN/MA) ao conceder entrevista em rádio local após a retomada feita pelos Gamela no dia 28.

Preocupa-nos ainda o alto índice de violência contra os povos e comunidade tradicionais do Maranhão. Atualmente, há cerca de 360 conflitos no campo no estado, destes, somente em 2016 foram registradas 196 ocorrências de violência contra os povos do campo. 13 pessoas foram assassinadas e 72 estão ameaçadas de morte.

Denunciamos mais esta violência e a iminência de novos ataques!

Exigimos do governo do estado que faça a segurança da comunidade indígena que segue ameaçada!

Exigimos o reconhecimento imediato do Território indígena Gamela!

Enquanto houver violência aos filhos e as filhas desta terra, não descansaremos. Seguimos lutando!

Comissão Pastoral da Terra do Maranhão (CPT-MA)

1º de maio de 2017.


NOTA PÚBLICA SOBRE O ATAQUE AOS GAMELA DE VIANA

O PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE no Maranhão - PSOL torna público seu mais veemente repúdio aos acontecimentos envolvendo a violência contra os Gamela do município de Viana.

No dia de ontem, os Gamela foram vítimas de um ataque organizado por fazendeiros e outros agentes que ocupam o território tradicional denominado “Terra dos Índios”;

Várias pessoas foram feridas a tiros e golpes de arma branca, alguns deles em estado grave, incluindo uma pessoa com as duas mãos amputadas, segundo informam as notícias;

Lamentamos que um conflito fundiário tão antigo, que remonta a uma doação de terras efetuada aos indígenas por Dom João VI, ainda esteja fazendo suas vítimas;

Denunciamos a passividade e a omissão do sistema de segurança pública, em relação à repressão de todos os atos preparatórios ao ataque, em reunião pública e convocada especialmente para esse fim, dentro de um contexto de muitas ameaças, antecipando o trágico acontecimento;

Denunciamos também os órgãos fundiários estadual e federal, assim como a Funai, por não resolverem o impasse envolvendo ditas terras, desde pelo menos o início da década de oitenta.

São Luís/MA, 01 de maio de 2017.

Executiva Estadual do PSOLMA
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Um comentário:

  1. esse brasil, tão lindo e rico nas mãos desses covardes, ladroes, exploradores, que nunca reconheçerão o direito das minorias, tem que acabar....Até quando vai imperar tanta ignorancia e preconceito...Vida digna para os gamellas e toda minoria humilde desse país...

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