sábado, 1 de julho de 2017

A tragédia das meninas sob a ótica de Abdon Marinho



Acredito que qualquer um saiba que uma criança de doze, treze, quatorze ou quinze anos, não está apta a uma vida sexual e muito menos para exercer as responsabilidades da maternidade (não falo paternidade, porque, para estes, basta o fazer, o colocar no mundo). Infelizmente muitos pais acham bonito que suas filhas ou filhos, em tenras idades, ao invés de estarem brincando com suas bonecas, carrinhos, bolas ou lendo seus gibis, já estejam “namorando”. Criança não namora, não tem maturidade para isso. Chega de loucura. 

- Por: *Abdon Marinho -


UM ASSUNTO vem martelando minha cabeça por estes dias, embora não saiba, ainda, qual a melhor forma de trazê-lo à discussão sem parecer que quero dar lição de moral ou revelar-me como uma espécie de falso moralista desconectado das coisas dos nossos dias.


Vamos a ele. Numa de minhas incursões pelo norte do estado reuni-me com um sindicato de professores para tratar de assuntos relativos à pauta do dia a dia. Ao fim da reunião, esgotados os assuntos objeto da mesma, uma professora trouxe uma informação que me deixou preocupado.

Ela, professora, chamou a atenção para o número elevado de meninas grávidas. E quando falamos meninas, estamos falando de pessoas na faixa de doze, treze anos. 
O assunto trazido pela professora motivou um prolongamento da reunião para discutir o tema, com outros professores também expondo suas experiências com situações idênticas. 

A mesma professora que trouxe o tema, narrou que fora professora da mãe da adolescente grávida e que esta, por sua vez, ficara grávida na adolescência, na mesma faixa de doze para treze anos. 

Ora, temos, no espaço de um quarto de século, a formação (equivocada) de duas gerações. Trata-se um fato grave, conforme levantado pela lente, pois se sente impotente para tratar do assunto com a mãe da infanta quando esta, em espaço de apenas treze anos, tornou-se mãe e avó. 

O norte do Brasil sempre teve um grave histórico de exploração sexual de adolescentes. Exploração, inclusive, que não fica restrita às meninas, já tendo motivado documentários, a prostituição dos meninos, depois mandados para os grandes centros do país para trabalharem como travestis. Uma espécie de crime duplo contra estas crianças.

Na rota da prostituição tem-se de tudo, desde pais é mães “vendendo” ou oferecendo os favores sexuais de suas crianças ao tráfico puro e simples e a exportação destas para outros estados e/ou outros países, onde são exploradas sexualmente sem qualquer piedade.

Lembro de já ter tratado deste tema tempos atrás, sendo este um assunto para as autoridades policiais, que pouco ou quase nada tem feito para estancar essa vergonha. 

O assunto desta oportunidade, embora na mesma linha, é de outra natureza.
Estamos falando de uma sexualização “voluntária” por motivos que vão além da exploração sexual de crianças por motivação econômica no mercado da prostituição.

O local onde discutimos este assunto está distante da rota da prostituição comercial e é uma região de grande religiosidade, contando-se mais de uma igreja para cada grupo de menos de mil pessoas. 

Tanto é assim que no debate que se seguiu os partícipes intuíram sobre as causas de tantas adolescentes iniciarem a vida sexual, apontaram que estas crianças têm no sexo uma forma de “diversão”, tendo em vista não “terem outras coisas a fazerem”; ou a forma de receberem uma renda através dos programas governamentais como o “Bolsa Família” e outros do gênero; e ainda os aspectos culturais da região. 

Observei que, talvez, pela quantidade de casos, desta natureza, ocorrendo diariamente, a sociedade, mesmo os educadores, adotem uma certa naturalidade no trato destas questões. 

Acredito que qualquer um saiba que uma criança de doze, treze, quatorze ou quinze anos, não está apta a uma vida sexual e muito menos para exercer as responsabilidades da maternidade (não falo paternidade, porque, para estes, basta o fazer, o colocar no mundo). 

Acredito não ser razoável a cada doze ou treze anos o surgimento de uma nova geração. Não acho que isto esteja correto, e aqui falo sem falsos moralismos.
A infância não é lugar para crianças brincarem “fazendo sexo”, ainda que sem a consequência da gravidez indesejada. 

A sexualidades deve surgir naturalmente e em sintonia com a maturidade, o que acontece de forma distinta em cada um. Infelizmente muitos pais acham bonito que suas filhas ou filhos, em tenras idades, ao invés de estarem brincando com suas bonecas, carrinhos, bolas ou lendo seus gibis, já estejam “namorando”. Criança não namora, não tem maturidade para isso. Chega de loucura. 

As músicas e determinadas culturas dos nossos dias trazem como normal a ideia das “novinhas”, uma forma de sexualizar crianças e adolescentes, cujos pais perderam qualquer noção de deveres para com elas. 
O que são as “novinhas” que trazem as músicas – de gosto duvidoso –, senão um claro convite para que se explore, como se fossem mercadoria, estas crianças? 

Outro dia me atraiu uma polêmica envolvendo pessoas do mundo televisivo. Um octogenário apresentador – uma prova clara de que a falta de vergonha não tem idade –, insistia, segundo li, em bancar o cupido de dois de seus funcionários, um rapazote de 19 para 20 anos e uma menina de 15 anos. Repito, 15 anos. 

No imbróglio que se seguiu, pelo que soube, a adolescente foi quem pareceu mais adulta, ao refutar com veemência o arranjo de caráter vergonhoso.
Pior mesmo no episódio, só o papel da sociedade e das autoridades ao terem como normal esse tipo de programação. Como se fosse normal colocar em rede nacional uma criança de 15 anos para namorar.

Ora, se é normal que se alcovite namoros para uma menina de quinze anos em rede nacional de televisão, que interpretação terá as de dez, onze, doze ou treze anos? Falta censura? Não creio. Sinto que falta é bom senso, discernimento da realidade do país e uma boa dose de vergonha na cara. 

Faz tempo que os pais – com as honradas exceções –, deixaram de ter responsabilidades para com seus filhos, pelo contrário, entregaram o papel de educar, orientar ou mesmo encaminhar suas escolhas, ao encargo do Estado. Os pais desejam a cumplicidade dos filhos, querem ser “amigos”, péssimos a, Igor por sinal, não os repreendendo ou mostrando-lhes os erros, como se isso não fosse imprescindível ao seu crescimento.

Para completar a tragédia mais que anunciada, temos aspectos da chamada cultura pop a estimular – até mesmo com direito a programas na TV –, a sexualização de crianças e adolescentes. Em maior ou menor grau este é um fenômeno que alcança todo território nacional, nos menores ou nos maiores municípios, lá estão nossas crianças sendo empurradas para uma vida adulta precoce e para a qual não estão preparadas. 

As campanhas, até aqui, empreendidas pelas autoridades são estanques e não voltadas para estratégias de enfrentamento permanente, seja na sociedade, nas escolas, nos lares. 

Assim, a sociedade brasileira, com sua omissão, leniência e permissividade vai roubando a infância de suas crianças e o futuro do nosso país. 

*Abdon Marinho é advogado.
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