A síndrome da crescente violência urbana - Ivan Sarney




* Ivan Sarney


A televisão não cansa de mostrar, em detalhes dramáticos, os fragrantes dos mais diversos crimes que ocorrem, no dia a dia de nossa vida urbana, em todos os recantos do país. Indignados, vamos assistindo a toda essa barbárie moderna, banalizando a vida, fugindo amedrontados dos riscos que nos ameaçam, contabilizando as vítimas, e questionando as previsões positivas de um futuro mais luminoso para nossos descendentes, para as novas gerações.

Os crimes se multiplicam, nas grandes cidades, com requintes de especializações, e vão migrando para as cidades de porte médio e, já agora, para as pequenas cidades, onde o sistema de segurança pública exibe maior precariedade.

O elenco de crimes vai desfilando sua nomenclatura, indo do crime passional ao crime político, com assassinatos de encomenda, seqüestros relâmpagos, assaltos a bancos e residências. Além disso, roubos, latrocínios, incestos, estupros, homicídios, cárceres privados, torturas. Não falta criatividade e motivos, muitas vezes banais, para justificar tanta violência, ceifando preciosas vidas humanas, até por balas perdidas. Tem crime para toda indignação.

Para agravar essas constatações, a cada dia, cresce o número de jovens, menores de 18 anos, envolvidos nesses crimes, como autores ou co-autores de crimes hediondos, com todos os requintes da maior crueldade. Esse indicador (aumento da criminalidade juvenil) é o suficiente para acender todas as luzes vermelhas de alerta, em nossa sociedade, exigindo políticas públicas de profundo alcance social, para a reversão desse problema, começando pelo fortalecimento da família.

São Luís não foge a essa dura realidade nacional, muito embora, em proporções de menor ocorrência, mas da mesma natureza e complexidade. O índice de violência urbana, em nossa cidade, está crescendo de forma assustadora e cruel. Basta olhar o noticiário que a imprensa, diariamente, estampa nas páginas policiais, nas manchetes e nas fotografias que publica, nos relatando os mais cruéis e frios homicídios, assaltos, roubos, estupros, sob o império de quadrilhas organizadas, como as gangues ou de criminosos ocasionais, sob o incentivo do álcool. O álcool e outras drogas estão, quase sempre, presentes em todo esse elenco de comportamentos criminosos, que tantas vidas tem ceifado ou tanto trauma tem causado a suas vítimas.

Por onde andamos, sentimos que está crescendo o número de excluídos sociais e que essa exclusão, com absoluta certeza, está alimentando o crescimento vertiginoso da violência que grassa em torno de nós, e ameaça a paisagem de nosso amanhã.

Quais são esses excluídos? Os analfabetos, os que não têm escola, não têm empregos, não têm moradia, não têm assistência à saúde, não têm vestuários dignos e não têm sequer o que comer, no dia a dia. São aqueles para quem a sociedade atual fechou suas portas, negou o exercício de seus direitos de cidadãos e não tem qualquer perspectiva de futuro melhor para lhes oferecer. Esse contingente vem crescendo, atingindo a classe média empobrecida, tolhendo a dignidade humana, numa sociedade que privilegia o capital, a tecnologia e o mercado de consumo.

No meio disso está o poder público, o Estado institucional, com suas políticas neocapitalistas, e o mundo de economia globalizada, que nos faz prisioneiros de interesses econômicos dos países ricos (agrupados em blocos), interessados sem ampliar o mercado de consumo para seus produtos, e em afirmar seus domínios sob os destinos do mundo.

Tudo isso leva a uma situação de agravamento de nossas tensões sociais, do aumento da disparidade entre pobres e ricos, da excessiva concentração de riquezas nas mãos de poucos. Esse é, em síntese, o panorama que nos envolve, e que está exigindo sacrifício de todos nós, que pagamos impostos, e temos deveres a cumprir com a criação de nossos filhos.

Como não vejo nenhuma ação pública consistente, que possa estancar em curto prazo esse processo conjuntural da exclusão, é sensato supor que essa situação ainda perdurará por vários anos, com gravíssimas conseqüências para o nosso país, em longo prazo.

Precisamos, como homens de boa fé, em nome de alguns postulados morais, éticos, adotar medidas protetoras da sociedade, para que ainda possamos cumprir a trajetória de nossas vidas, com sonhos, com esperanças, com algo que nos conforte como seres humanos, nascidos para a liberdade, para o amor e para a busca da plenitude.

A segurança deve ser um dos pontos de maior determinação e empenho do poder público, porque ela envolve a vida, os projetos futuros, a ordem social, sem cujo estabelecimento a própria governabilidade se esvai e deixa de ser exercida, para imperar a desordem, a impunidade, a lei dos mais fortes, o império do crime.

Precisamos construir perspectivas de melhor participação social dos jovens, através da educação, do esporte, do trabalho - com respaldo da família - livrando-os do assédio das drogas e da sedução do ócio e da violência.

Amar a cidade é adotar medidas preventivas para proteção de seus cidadãos. É preciso amar a cidade.

ivansarney@uol.com.br

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