Informados e inconscientes - Joãozinho Ribeiro
A constatação é sofrível e constrangedora, porém lamentavelmente real; estamos juntos, mas não constituímos uma comunidade. Não nos basta o grau de informações disponíveis e o nível declarado de instrução se o estranhamento e o alheamento que ostentamos em nossas relações de vizinhança nos transformam, no dia a dia, em cidadãos incompletos, alienados pelo trabalho, internados, cada qual nos seus ofícios, conformados e acomodados com a realidade social em decadência que nos cerca.
Somos parte dela, talvez contribuintes exemplares da reprodução e ampliação das desigualdades, e o que é pior, inconscientes, tal e qual denunciou um ensaísta francês, recentemente, sobre a relação dos homens e mulheres com as novas tecnologias de informação e comunicação, que criaram uma nova categoria de seres:
“Antes as pessoas eram alienadas ou inconscientes. Com a cultura de massa nasceu o informado inconsciente, isto é, um tipo humano, que sabe tudo mas não tem consciência de nada”.
Esta relação passiva, contraída nos tempos pós-modernos, já incomodava nos “Tempos Modernos” um dos maiores gênios do cinema mundial, Charles Chaplin, que a seu tempo vaticinava: “Não sois máquinas, homens é o que sois”.
A nosso tempo, o ilustre constitucionalista brasileiro, Luís Roberto Barroso, afirma que chegamos com pressa e atrasados ao século XXI. Eu acrescentaria, com a necessária cautela: para chegar, afinal,aonde?
Alguns adágios populares de conteúdos questionáveis continuam a ser repetidos e incorporados pela nossa linguagem enaltecedora da política do “mais do mesmo”. Um deles nos diz que o trabalho dignifica o homem. Pergunta-se: Que homem? Que mulher?
Numa sociedade que historicamente passou pelas agruras e pela vergonhosa chaga da escravidão, a origem e a afirmação dessa dignidade é, no mínimo, duvidosa. Já paramos para pensar se o tipo de relação que mantemos nos nossos ambientes de trabalho, com os nossos colegas e usuários do serviço público é avalista dessa dignidade? Ou apenas reproduzimos com as nossas (in)diferenças e cumprimento diários dos expedientes as mesmas indiferenças que praticamos no mundo exterior que nos circunda?
Saindo dos expedientes diários, como será a relação de cada um de nós com a comunidade em que habitamos? De participação ou de alheamento? De interação ou de confinamento?
Podemos nos orgulhar e transmitir para as gerações presentes e futuras de algo que vá além da departamentalização familiar das nossas vidinhas, ou das paredes invisíveis que erguemos em torno de nossos grupos de trabalho, chefias, seções, divisões, coordenações ou algo do gênero que o direito administrativo criou para designar o ajuntamento disforme de pessoas sem nome e sem alma?
E a tão propalada cidadania? Faz parte de um exercício permanente de nossas existências ou estamos mais interessados em passar procurações para que outras pessoas a exerça por nós? Tributação e desigualdade, esse papo interessa? E a cultura, deve sair ou continuar na pauta? Ou a saída à francesa do “eu não tenho nada a ver com isso” deve prevalecer?
O déficit de cidadania conduz, inexoravelmente, ao déficit de democracia. A não-cidadania, a não-democracia são resultantes da falta de protagonismo. A brutalização, a indiferença e o alheamento a um dos direitos humanos fundamentais, que é o direito à cultura, prescrito na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na nossa Carta Constitucional, conduz a desumanização dos territórios de convivência; sejam eles urbanos ou rurais; centrais ou periféricos; profissionais ou familiares; religiosos ou laicos.
A resposta afirmativa a esse déficit de protagonismo nos processo participativos só pode se dar através da capacidade que tivermos (ou não) de enfrentamento do passivismo cultural para, assim, merecermos a titulação de cidadãos, agentes transformadores da realidade social injusta e, quem sabe, sujeitos da nossa própria história.
É o mínimo que podemos cobrar de nós mesmos, num mundo onde a evolução tecnológica e a globalização intensa da produção industrial e o consumismo exacerbado não podem se transformar em mecanismos esvaziadores das nossas humanidades. O exercício da cidadania não admite que passemos procuração para ninguém exercê-la em nosso nome.
A nossa condição de informados inconscientes induz a tornarmo-nos objetos de situações inusitadas, como é o gritante caso citado pelo professor adjunto da Université d’Avignon et des Pays de Vancluse, Paul Tolila, no livro de sua autoria “Cultura e Economia”, publicado pela Editora Lumens:
“Há dois anos, na França, o presidente da maior rede privada de televisão francesa fez uma declaração estarrecedora sobre a definição de seu ofício. Suas afirmações produziram uma espécie de tremor de terra generalizado na esfera intelectual e cultural, um cerrar de punhos repleto de indignação. Eis a frase proferida integralmente que fez tanto escândalo:
“No fundo, o trabalho da TF1 é ajudar a Coca-Cola, por exemplo, a vender seu produto. Ora, para que uma mensagem publicitária seja vista, é preciso que o cérebro do telespectador esteja disponível. Nossos programas têm a vocação de torná-lo disponível: isto é, diverti-lo, relaxá-lo, para prepará-lo entre uma e outra mensagem. O que nós vendemos para a Coca-Cola é o tempo de cérebro humano disponível”. (Patrick Le Lay, presidente da TF1, julho de 2004).
Guardadas as proporções devidas e as adequações locais, já nos indagamos para onde estaremos comercializando nosso tempo de cérebro disponível? Com esta mercancia cerebral inconsciente estamos favorecendo pessoalmente a que práticas políticas, econômicas e culturais saírem vencedoras desta peleja humana ainda inacabada?
Discípulos fervorosos e acríticos dos big brother da vida, apassivados pelo comodismo latente de classe média funcional, assim vamos caminhando em nossas esvaziadas humanidades, dando abrigo, vez em quando, a algum gesto filantrópico, incapaz de romper com o ciclo reprodutor das desigualdades, dando azo ao que o poeta Goethe afirmava acerca da literatura:
“O início e o fim toda a atividade literária é a reprodução do mundo que me cerca por meio do mundo que está dentro de mim”.
Triste mundo! Triste literatura!
Por: Joãozinho Ribeiro

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