SAUDADE COM GOSTO DE PIQUI - Jacqueline Heluy
SAUDADE COM GOSTO DE PIQUI - Jacqueline Heluy
Há cerca de seis anos ouvi de uma amiga que vivencia a doutrina espírita: “Jack, morrer dói. Está passagem da vida carnal para a espiritual é dolorida, mas depois que se chega ao outro lado, é só felicidade”. Perguntei a ela, incrédula: “e como sabes disso? Algum dia já morreste, por acaso?”. Estávamos em um bate-papo descontraído, a amiga tentando amenizar um pouco a minha irritante racionalidade crítica, falando-me de Deus, de plano espiritual e essas coisas. O que eu não sabia é que em julho de 2012 eu seria tomada por uma estranha e repentina dor que talvez confirme a tese defendida por ela seis anos antes.
Foi no dia 5 de julho, pouco ante das duas da madrugada. Estava dentro de um vöo da TAM , de Brasília para São Luís. Finalmente o sono havia chegado e eu já estava adormecendo quando senti uma onda de frio intensa, repentina, de tremer as pernas e bater os queixos, parecia um calafrio. Em seguida uma dor, sim era dor física, mas não igual a qualquer uma outra que eu já sentira. Parecia que as minhas forças estavam esvaindo-se e que arrancavam todos os meus órgãos – coração, fígado, pulmão, rim. Eu chorei e pensei em meu pai e tive a certeza que ele estava indo embora.
O avião pousou às 2h30 e eu não liguei para o hospital para falar com minha mãe para saber como ele estava. Sei que deveria, mas não liguei por pura covardia. Também não fui para lá de manhã cedo como eu havia planejado quando eu ainda estava em Brasília. Por voltas das 8h10 meu celular tocou e minha irmã me pediu para ir para o hospital porque ele havia piorado muito e ia ser levado para a UTI para ser entubado. Eu fui, mas retardei esta minha chegada. Mais um ato de covardia. Parei em uma lotérica para pagar uma conta totalmente desnecessária, pelo menos naquele momento. Não, eu não queria assistir aos últimos momentos de vida do meu pai. O que eu vivenciei pela madrugada foi a despedida dele, e doeu muito.
Vinte minutos se passaram desde que eu chegara ao hospital e aguardava junto com a minha mãe, meu filho Thiago e meus irmãos Lúcia Helena e Heluy Junior qualquer notícia do estado do meu pai dentro da UTI. Coube à doutora Edilene a triste missão de dizer à família que ele não havia resistido a uma parada cardíaca. Meu pai estava morto.
Eu sempre tive muita dificuldade em aceitar a morte, aliás, não sei lidar com perdas. Sofro a ponto de me sentir um flagelo. Nem Saramago havia conseguido me fazer entender a morte como algo necessário.
A revelação do significado da morte do meu pai veio acontecer, para mim, três dias depois da sua partida. Estávamos todos na sala procurando fotos para o livro da Missa de Sétimo Dia, quando a minha mãe nos mostrou uma foto dele em Barão de Grajaú. Meu pai estava transbordando de felicidade porque saboreava uma travessa de arroz com piqui. Quanta simplicidade, singeleza e humildade havia naquele homem. A foto mostrou o que era ele. Meu pai tinha a capacidade de sentir-se feliz com pouca coisa. E naquele momento desabei em prantos Desta vez não foi de dor, foi de saudade.
Aquela foto me fez compreender o sentido de tudo, não apenas da sua morte, mas da sua existência. José Ribamar Heluy transmitiu a nós, seus filhos, lições de caráter, de seriedade, de respeito e amor ao próximo náo apenas com palavras, mas com atos concretos ao longo de sua vida. Fez da magistratura um sacerdócio e soube honrá-la, tendo como princípio basilar a HUMILDADE.
Lembro-me, ainda criança, quando ele, juiz, minha mãe, promotora, chegavam em casa e se deparavam com algum presente deixado por parte de qualquer processo. O mundo vinha abaixo, parecia que tinham visto um monstro. Foi assim quando eu, com 11 anos, recebi na porta de casa um presente para um deles. Era um conjunto de puf amarelo (sofá de plástico) igualzinho aos que eu via nas novelas. Quando eles chegaram em casa e me perguntaram quem havia deixado e eu disse o nome da pessoa, meu pai foi taxativo: liga agora Helena, manda vir buscar porque se não vier, eu vou jogar este sofá no meio da rua˜. E assim eles devolviam todos os presentes e eu pensava: ˜Meu Deus, onde já se viu devolver presente. Eles são mal educados. Eu sou filha de dois loucos˜.
Mas eu era só uma criança e nem sabia que pessoas adultas podiam vender sua consciência e macular a sua carreira profissional em troca de presentes. Mas isso eu fiquei sabendo no dia em que eu questionei o porquê de devolverem uma caixa de chocolates finos que eu havia recebido na porta de casa no Dia das Mãe . Quando meu pai disse que ia devolver eu perguntei meio zangada: "poxa, mas nem uma caixa de chocolate vocês podem receber? E ele respondeu: “Não, não podemos. Filha, há pessoas que se corrompem até com elogios”. Foi a primeira vez que ouvi a palavra corrupção.
Com meu pai eu aprendi, também, que se deve ter paixáo pelas causas que abraçamos. Esta lição concreta foi dada por ele em 1986, quando era juiz da Vara da Infäncia e decidiu recolher algumas crianças que moravam nas ruas. “Mas o senhor vai levar estes meninos para onde?”, eu perguntei. ”Para a nossa casa”, ele respondeu. E levou. De repente, tínhamos cerca de 15 meninos morando em nossa casa. Ele não era louco, apenas tinha amor em demasia transbordando no coração e achava que era disso que aquelas crianças precisavam: um pouco de amor, um pouco de atenção.
José Ribamar Heluy era assim. E assim ia nos transmitindo, dia a dia, as suas lições. Outra aula de desapego, amor e coragem ele me deu já na década de 90, quando eu , cobrindo para o jornal O Imparcial uma rebelião em Pedrinhas, deparei-me com meu pai tomado de refém dentro de uma cela de alta periculosidade, como revólveres e facas na cabeça. Não entendi nada e fiquei pensando como é que ele havia ido parar ali dentro daquela cela. No final tudo acabou bem, sem a necessidade de derramar uma gota de sangue, mas eu quis saber: "como é que o senhor foi parar ali? Os presos lhe obrigaram?, perguntei. “Não. Quando eu cheguei ao presidio para o início das negociações a mãe do agente penitenciário que estava mantido de refém me abraçou chorando e pediu para eu não deixar o filho dela morrer. Então eu pedi para ficar no lugar do agente e os presos aceitaram”, respondeu.
Não, não pensem que estou dizendo que ele foi santo. Foi um homem de fraquezas, como qualquer outro. E flagelou-se aos extremos pela pior delas. Algo incompreensível para todos e que, ao meu ver, foge até mesmo deste plano, afinal, quem há de entender os mistérios da vida.?
Naquele domingo, ao ver a foto do meu pai com o seu arroz de piqui, chorei de saudade, mas chorei muito mais porque senti a presença dele ali pertinho da gente, parece que aquela foto se materializou. Foi um misto de saudade e felicidade.
Agora compreendo as palavras da minha amiga: “depois da dor da partida, vem a felicidade pelo que ele encontrou”. Sim, meu pai está sereno e feliz, eu posso sentir isso.
São 5h20 da manhã deste domingo e cá estou eu desde às 3h da madrugada, mas não estou sozinha, sinto a presença dele ao meu lado. Agora sim, posso dizer que compreendo a sua morte. A sua missão foi cumprida. O seu legado se eternizará por gerações. Daqui para frente as minhas lágrimas serão apenas de saudade.
Bom dia, meu PAI!
SAUDADE COM GOSTO DE PIQUI - Jacqueline Heluy

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Jornalista Abimael Costa