Uso de drogas associado a outras doenças mentais - Ruy Palhano*
*Psiquiatra
E-mail: ruy.palhano@terra.com.br
Designa-se comorbidade o fato de em um mesmo indivíduo apresentar mais de uma doença em seu contexto histórico. É um conceito novo em psiquiatria, com não mais de vinte anos, e vem sendo aplicado nessa especialidade com muito rigor, pois o entendimento desse diagnóstico favorecerá, ou não, o tratamento médico.
Na prática clínica, o psiquiatra deverá examinar seu paciente com muito mais rigor, pois se exige uma apurada avaliação clínica na busca dos diagnósticos existentes e, consequentemente, os possíveis tratamentos a que este paciente se submeterá.
Na área específica do uso de drogas, a comorbidade se destaca. O número de dependentes químicos ou abusadores de álcool e outras drogas com comorbidade é muito elevado. Estudos recentes mostram que está acima de 75% o percentual de pacientes com transtornos mentais que fazem uso de drogas. Trata-se, portanto, de uma das áreas mais importantes da psiquiatria em que se pode aplicar esse conceito.
Os achados clínicos vêm levantando inúmeras polêmicas. Será que a presença de outras doenças mentais favoreceria a busca de drogas por determinada pessoa? O uso de drogas funcionaria tão somente como desencadeador de outras doenças mentais entre os usuários? A presença de comorbidade seria empecilho para a recuperação dos enfermos? Essas são apenas algumas das principais questões que haveremos de responder nos próximos anos, muito embora já tenhamos avançado muito sobre essas questões.
À guisa de esclarecimentos, o DSM-IV (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Norte-Americana de Psiquiatria) nos informa que o transtorno por uso de substâncias, que engloba o abuso e a dependência de drogas, encontra-se frequentemente associado a outras patologias psiquiátricas. Assim, diante de um paciente com uso problemático de drogas, seja dependência ou uso abusivo, devemos sempre investigar a existência de outra doença emocional, ou por baixo da dependência ou como consequência.
É provável até que a existência de outros transtornos emocionais comórbidos à dependência dificulte a adesão do paciente ao tratamento, proporcione resultados piores em termos de frequência e quantidade da droga consumida, bem como do funcionamento psicossocial. É isso mesmo. Nem sempre é a droga em si a responsável exclusiva pela apatia ocupacional do dependente, pelos fracassos sociais e familiares. Muitas vezes, sua própria personalidade se mostra algo inviável para a condução da vida.
Outras questões relevantes que aparecem normalmente no âmbito desse debate são: Seriam outros transtornos emocionais que causariam isso tudo? Quais patologias mentais estariam mais frequentemente associadas ao uso de drogas? Tais doenças teriam uma evolução diferente por culpa das drogas? Quais os tratamentos e as prevenções mais apropriadas?
Em relação às doenças mentais mais severas, temos a esquizofrenia e o transtorno bipolar do humor. Em quase metade dos pacientes também aparece a associação com abuso ou dependência de substâncias psicoativas. Transtorno de conduta na infância, transtorno afetivo bipolar na adolescência e transtorno anti-social de Personalidade ou Borderline seriam fortes fatores de risco para uso de drogas. Há muitos relatos que crianças com temperamento considerado “difícil” apresentam fatores de risco para o uso futuro de drogas. Outras comorbidades como depressão e uso de álcool, tabagismo e transtorno de ansiedade, distúrbios de personalidade e uso de crack são muito frequentes na prática médica.
Quanto ao tratamento do dependente químico portador também de outra doença mental, há resultados melhores quando se integra o tratamento dos sintomas psíquicos do eventual transtorno com atitudes direcionadas à dependência. A existência de comorbidade aumenta a dificuldade no controle de cada doença isoladamente, ou seja, é mais difícil tratar um paciente deprimido e dependente de cocaína do que o tratamento da depressão ou dependência à cocaína isoladamente.
*PSIQUIATRA - Ruy Palhano Silva
MÉDICO NEUROPSIQUIATRA, PROFESSOR DE PSIQUIATRIA DO CURSO DE MEDICINA DA (UFMA),
MESTRE EM CIÊNCIAS DA SAÚDE (UFMA),
ESPECIALISTA EM DEPENDÊNCIA QUÍMICA PELA (UNIFESP),
EX - PRESIDENTE DA ACADEMIA MARANHENSE DE MEDICINA.
RUY.PALHANO@TERRA.COM.BR


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