Erick Calistrato, o “cara de saia” do Facebook “Diferente por um dia”


DE: Blog Nada Errado - Publicado por Ricardo, 09/08/2012




Desde ontem, o rosto de Erick Calistrato invadiu o Facebook. Mas quem é esse cara? Erick é estudante, tem pouco mais de 400 amigos na rede social e, de repente, teve sua foto compartilhada milhares de vezes – até o momento desse post, foram 4.397. E porque tudo isso? Porque ele resolveu vestir “uma saia”.

Leia abaixo o post original de Erick no Facebook e a nossa conversa com ele.

“Fui para a faculdade ontem (dia 07/08) de kilt por dois motivos. Primeiramente, para chamar atenção, acho que isso todo mundo já sabe, né. E segundamente, e obviamente mais importantemente (não estou mentindo): Eu quis sofrer preconceito.

Depois de ler uma matéria sobre transgêneros (não confundir com transgênicos) e sobre o Laerte, cartunista brasileiro famoso que resolveu se vestir como mulher aos 65 anos de idade, fiquei muito chocado, mas muito curioso. Procurei mais sobre e encontrei uma entrevista com ele no programa Roda Viva, na TV Cultura. Naquela entrevista, uma repórter fez uma pergunta muito interessante e perturbadora, que foi mais ou menos assim: “Larte, você fazia parte de um grupo que praticamente é imune, né. Branco, magro, classe média, heterossexual, bem sucedido, pai de família. Como é perder completamente essa barreira?”. Eu fiquei muito surpreso em ver que, tirando a parte do “pai” e do “bem sucedido”, a descrição batia com a minha própria! Eu nunca havia parado para pensar o quão fácil e livre de preconceitos a minha vida havia sido até então, sem eu nunca ter feito NADA para “merecer” isso.


Desde então tenho lido muito sobre preconceito, homofobia, transgêneros, exclusão, minorias, cotas. Resolvi aproveitar o presente que minha namorada trouxe para saber como uma pessoa NADA comum se sente em espaços públicos. Estava usando um adereço simples, comum em outros países, símbolo até de status social em alguns lugares, mas extremamente estigmatizado no Brasil. Um kilt é uma saia, e não interessa de onde vem: Se você é homem, você não pode usar saia, senão você é viado. E viados são sujos. Foi mais ou menos isso que eu quase pude escutar dos olhares, cutucadas, risadas e comentários das pessoas nas ruas, no ônibus, no metrô, em casa.

Convido a todos que se acham inteligentes, maduros e sem preconceitos a andar de mãos dadas, ou até abraçado com alguém do mesmo sexo. Ou com uma roupa muito incomum. Ou até mesmo aparentando qualquer defeito físico. Quando você se vê rodiado de pessoas te olhando e fazendo questão de mostrar que estão insatisfeitas com sua aparência, você percebe como é mais fácil ser branco, magro, classe média, heterossexual, bem sucedido, pai de família.”

No seu post, você diz que o kilt foi um presente da sua namorada. Porque não tinha usado antes?

Eu tinha ACABADO de receber o kilt. Ela chegou na quinta feira, eu usei na terça. Não usei antes porque não deu tempo mesmo.

Sua namorada te acompanhou na sua “aventura”?

Não, ela não estuda comigo. Ela estava trabalhando naquela hora.

Como foi, pra você, ser “gay por um dia”?

Então. Você tocou numa questão importante. Minha intenção era ser “diferente” por um dia. Algumas pessoas disseram “ahh, esse cara não tá fazendo nada de revolucionário! Muito pelo contrário! Ele tá usando um dos símbolos mais heteronormativos e machistas do mundo!”. Eu entendo essas pessoas, mas discordo completamente. Eu sabia que, para a maioria das pessoas que eu ia encontrar no caminho, kilt é uma saia e ponto. E saia só pode ser usado por mulher. Qualquer homem usando uma saia é uma aberração, uma piada, uma anormalidade. Eu não quis dar uma lição de moral em ninguém. Não queria dizer “Olha só seus homofóbicos! Eu sou um homem e estou de saia!”. Se essa fosse minha intenção, teria usado uma minissaia de látex (e eu teria que gostar muito do protesto, pois imagino que isso seja um tanto desconfortável pra qualquer ser humano). Queria apenas saber, mesmo que em escala milionésima, o que é ser alvo de piada por puro desconhecimento. Achei que seria desagradável. E foi.

Sentiu preconceito por parte de pessoas que já te conheciam? Algum amigo chegou a “duvidar” de você ao te ver de “saia”?

As pessoas que já me conheciam não só já sabiam que eu sou palhaço e tenho pouca vergonha na cara como também sabiam o que era um kilt. Não houve problema algum. Meus colegas de sala até gostaram. Uma delas até disse que achava homens de kilt sexy. Não sei. Minha namorada concordou com ela, pelo menos, hehe. No campus da universidade, a surpresa era visível, mas nada demais. Afinal, um maluco de kilt não é algo que se vê todo dia. Uma olhada ou outra aqui e ali, mas tudo bem discreto. Não escutei nenhum comentário maldoso. Teve um cara que gritou “WHATTAFUCK!” depois que eu passei por ele, talvez pra impressionar os amigos. Na rua é que foi bem desconfortável mesmo.

Você tem medo de alguém achar que essa sua atitude “política” é só uma “desculpa” pra você se mostrar gay sem ter que sair do armário?

Bom. Eu não tenho dúvidas quanto a minha sexualidade. Mas fico pensando “até que ponto não sinto atração por outro homem por conta do medo de sofrer preconceito?” Não sei. Amigos gays me dizem que quem é gay sabe que é gay. A única dúvida seria quanto a sair ou não do armário. Não é meu caso. Acho que se isso fosse um problema pra mim, eu já saberia há muito tempo.

Você tem amigos ou pessoas próximas que são gays? Qual é a sua relação com a homossexualidade?

Sempre tive conhecidos gays. Comecei a trabalhar cedo, como professor de inglês, e é comum que alguns professores de inglês sejam homossexuais. Alias, deve ter muito aluno que deve jurar que eu sou gay, hehe. Alguns desses colegas de trabalho são meus amigos até hoje, mantemos contato apesar das mudanças ocasionais da vida. Quando entrei na universidade, já estava mais do que acostumado a ter colegas homossexuais e, como a universidade, apesar de católica, tem muito pensamento crítico e liberdade (e muito reacionário e gente burra também), ficou cada vez mais comum conversar e ter aulas com gays. A única coisa que me espantou foi a presença de transgêneros na faculdade. Não era nada comum pra mim, arrisco até dizer que nunca havia visto um. Espero não ter sido preconceituoso com el@s. Foi mais ou menos nessa época que comecei a ler mais sobre o assunto, procurar notícias e artigos na internet, ler livros e me informar um pouco mais sobre isso. Tenho até uma pasta no navegador só de links importantes, pra facilitar na hora de uma discussão. Sou bem chato no Facebook, discuto sempre, toda hora, com todo mundo. E não tenho vergonha de mudar de opinião.

Comentários

  1. SR. ABIMAEL!!!ADORE LER FATOS INTERESSANTES;VC JÁ OUVIU FALAR EM MEDICOS SEM FRONTEIRAS???ACHEI Q TEM MUITA UTILIDADE E VC SE SENTE UTIL EM SER UTIL E N SER FUTIL..UMA BOA NOITE!!DIGA-SE DE PASSAGEM Q N SOU SOU NENHUMA INTELECTUAL MAIS ESSE RAPAZ N DEVE TER MUITA COISA P SE PREOCUPAR POIS ESSA ONDA DE PRECONCEITOS À HOMOSSEXUAIS N TENHO NADA CONTRA MAIS TEMOS TANTAS COISAS MAIS IMPORTATANTES P NOS PREOCUPAR N ACHA?

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Credibilidade é o nosso maior patrimônio

Nosso objetivo é fazer jornalismo com seriedade, produzindo conteúdo regional, sobre política, economia, sociedade e atualidade, na forma de opinião, editorial e criticas.

Não somos o primeiro a divulgar a informação, mas somos quem apresenta o conteúdo checado, aprofundado e diferenciado.

Noticias qualquer um pode divulgar, mas com apuração e seriedade só aqui.

Jornalista Abimael Costa

Avançando com a nossa gente

Avançando com a nossa gente