A Política de Saúde Mental, o Grande Desafio - Ruy Palhano

*Ruy Palhano  

Considero atualmente as questões relativas às doenças mentais um dos temas mais abrangentes e preocupantes em termos de saúde pública que merecem mais cuidados e mais atenção dos diferentes poderes públicos e da sociedade em geral, para seu manejo correto.

Muito embora se saiba que a maioria dos transtornos psiquiátricos sejam muito antigos, pois os relatos de sua presença são milenares, considera-se o período socrático como o que deu as bases para o entendimento médico tanto do ponto de vista clínico quanto de seu tratamento, para lidarmos com estas doenças. Desta época para muita coisa mudou, com a evolução foram surgindo novas e modernas tecnologias para seu diagnóstico e para a execução de terapêuticas eficientes.

Apesar de tudo, permanece entre nós algumas incógnitas históricas que permanecem dificultando seu manejo do ponto de vista de políticas pública, haja vista o que vem ocorrendo de 10 anos para cá com a implantação da política nacional de saúde mental, que vem contribuindo para desconcerto geral nas instituições que tratavam estas questões, alterando alguns paradigmas essenciais na execução da assistências destes enfermos. Considera – se de há muito tempo uma proposta inconsistente, restritiva e ineficaz pela exclusividade com que lida com estas doenças.

O modelo proposto, apesar, julgo eu, de ter sido bem intencionado ele excluiu da população leitos psiquiátricos para atender a população que necessitasse desta intervenção. É uma política marcadamente deficiente quanto aos recursos humanos sem corpo técnico bem treinado e capacitado que dê conta dos pacientes centrados em um modelo de atenção aos doentes mentais excrecionário e limitador que não atende as demandas inerentes à própria doença mental como hospital para internação psiquiátrica, pronto socorro especializado, ambulatórios em saúde mental, atenção farmacêutico eficiente etc.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou ontem (7) um guia recomendando mais simplicidade na busca do diagnóstico e a humanização no tratamento das doenças mentais e neurológicas, além dos transtornos causados pela dependência química e de álcool. A ideia da OMS é investir mais na identificação precoce da doença e partir para o tratamento adequado em cada caso. Em seis países, entre eles o Panamá, na América Latina, especialistas da OMS farão parceria com os profissionais locais.

Segundo a mesma instituição há cerca de 95 milhões de pessoas que sofrem de depressão no mundo, sem o tratamento adequado, e mais 25 milhões também não medicadas que têm problemas causados pela epilepsia. Pelos dados da organização, uma em cada quatro pessoas no mundo tem propensão a desenvolver doença mental ao longo da vida.

A OMS concluiu ainda que poucos recursos destinados ao tratamento dos doentes mentais, pois na maioria dos países menos de 2% dos recursos destinados à área de saúde são gastos no tratamento de doenças mentais e neurológicas e a maioria dos paciente não recebem atenção adequada.

Na tentativa de reverter a situação atual, a organização vai prestar apoio no desenvolvimento de programas de saúde mental e neurológicas de países como: Etiópia, Jordânia, Nigéria, Panamá, Serra Leoa e Ilhas Salomão. Médicos e enfermeiros farão visitas aos doentes que sofrem de depressão e às crianças com epilepsia. O objetivo é orientar as famílias nos tratamentos adequados.

O diretor assistente da área de Doenças Não Transmissíveis e Saúde Mental da OMS, Ala Alwan, afirmou que para melhorar o tratamento da saúde mental e neurológica não se exige “ tecnologia sofisticada e cara” , mas o aumento da capacidade de diagnóstico

A diretora-geral da OMS, Margaret Chan, disse que o guia, com aproximadamente 100 páginas, servirá de orientação para os profissionais da área de saúde - especialistas em saúde mental, médicos e enfermeiros. Segundo ela, as diretrizes se basearam em evidências observadas em vários países.

Diante de todas as evidências que adquirimos nos últimos 10 anos sobre as práticas em nosso país, faz-se necessário que se reflita com toda disposição sobre o que deu certo ou não para provocarmos uma ampla mudanças na prática psiquiátrica e saúde mental em todos os sentidos.


*PSIQUIATRA - Ruy Palhano Silva


MÉDICO NEUROPSIQUIATRA, PROFESSOR DE PSIQUIATRIA DO CURSO DE MEDICINA DA (UFMA),
 MESTRE EM CIÊNCIAS DA SAÚDE (UFMA),
 ESPECIALISTA EM DEPENDÊNCIA QUÍMICA PELA (UNIFESP),
EX - PRESIDENTE DA ACADEMIA MARANHENSE DE MEDICINA.
RUY.PALHANO@TERRA.COM.BR

Comentários