terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Professor relembra um mês do assassinato de universitário na escadaria da Rua do Giz



Foto:De Jesus

Nesta segunda-feira (4), completa um mês que Hildebrando Bezerra de Araujo Junior, 25 anos de idade, aluno do curso de Licenciatura em Artes Visuais, da Universidade Federal do Maranhão foi assassinado brutalmente no Centro Histórico de São Luís. Will, que também integrava os grupos artísticos Maratuque e Circo Tá Na Rua, foi vítima de assalto seguido de morte, na escadaria da Rua do Giz, durante a madrugada de sexta-feira, 04 de dezembro.

O professor Murilo Santos publicou texto relembrando o covarde assassinato de Hildebrando e o ato “PELA VALORIZAÇÃO DA VIDA E CONTRA A (IN)SEGURANÇA PÚBLICA” realizado em 17 de dezembro de 2015 na praça Nauro Machado.  


Murilo Santos


HOJE, 04/01/2016 FAZ UM MÊS QUE MEU EX-ALUNO HIDELBRANDO BEZERRA DE ARAÚJO JÚNIOR FOI ASSASSINADO NO CENTRO HISTÓRICO DE SÃO LUÍS. POSTO ESTE VÍDEO GRAVADO EM 17 DE DEZEMBRO DE 2015 NO ATO “PELA VALORIZAÇÃO DA VIDA E CONTRA A (IN)SEGURANÇA PÚBLICA”, ACOMPANHADO DO TEXTO QUE LI DE FORMA RESUMIDA DURANTE A MANIFESTAÇÃO.

Assim que cheguei da missa de sétimo dia de Hidelbrando, o “Juninho” como os familiares o chamavam em todos as falas emocionadas durante o ritual na Igreja São José da Providência na Cohab, revi as listas de presença das minhas aulas de Fotografia do primeiro semestre de 2013 do Curso de Artes Visuais da UFMA, buscando o aluno de matricula 20111046244 - Hildebrando Bezerra de Araújo Júnior. Para mim, foi uma forma de reencontra-lo. Hidelbrando chegou ao Centro Histórico na noite do dia 3 e na madrugada do dia 4 foi morto por assaltantes. Coincidentemente nesses dois dias ocorria no Instituto de Ensino Superior do Maranhão (IESMA) a sétima edição do Dezembro de Paz, promovido pela Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Luís, evento para o qual fui convidado a participar.

Soube da morte de Hidelbrando por meio de uma aluna de nosso curso que, assim como outros colegas de Hidelbrando, o chama de Will.

Que felicidade ver um jovem de 25 anos cuja dimensão humana e artística necessita das três formas que o identificam: Hildebrando Bezerra de Araújo Júnior, conforme a documentação e de onde extrai o nome artístico Hildebrando Jr.; Will, para os colegas e como reconhecimento de seu talento artístico; Juninho, jeito de chama-lo que eu não conhecia até aquela missa de sétimo dia. 

Chama-lo de Juninho demonstra como ele era (e continua sendo) querido na sua família. O tratamento revela também uma forma carinhosa de apreendê-lo como uma criança frágil, delicada, sensível e merecedora de todos os cuidados.

Pois bem, essa criança, esse cidadão que como qualquer outro merece ser protegido ao sair de casa para passear e curtir eventos culturais no Centro Histórico (principal razão do título São Luís Patrimônio Cultural da Humanidade), ficou à mercê do lado desumano da nossa cidade.

Soube da morte do Will quando ele já havia sido sepultado e as informações que me chegavam não eram muito detalhadas. 

Então, buscando qualquer notícia nas páginas jornalísticas da internet, me deparei com esta: “Um jovem identificado como Thiago Bruno dos Santos, de 27 anos, foi assassinado com duas facadas na noite dessa quinta-feira. O crime aconteceu na Rua de Nazareth, no Centro Histórico da capital maranhense.”

Havia algo de errado nessa notícia! O nome não batia! Mas a matéria indicava que o crime foi cometido com faca e a escadaria da Rua do Giz onde Hidelbrando foi morto faz esquina com a Rua de Nazaré. Na minha busca apressada não reparei que a data dessa notícia era 21 de março de 2014 e estamos em dezembro de 2015. 

Aqui, gostaria de fazer uma reflexão evocando o aspecto histórico de nosso Patrimônio Cultural da Humanidade. Desconsiderando neste momento qualquer questão relacionada à antiga ou a atual gestão, quero me referir à edificação conhecida como Palácio dos Leões guarnecido pelas duas esculturas dos animais que dão nome ao palácio. Tal edificação está situada ao lado da Prefeitura Municipal de São Luís tendo à sua frente a estátua que representa Daniel de La Touche, considerado oficialmente o fundador desta cidade.

Esses dois assassinatos à faca ocorreram num lugar muito próximo destes dois prédios históricos, a uns duzentos, trezentos metros deles. Ou seja, esses crimes aconteceram nas barbas de Daniel de La Touche e debaixo das jubas dos dois famosos leões do Palácio, o da esquerda e da direita. 

Há muito que o trecho entre a Rua de Nazaré e a escadaria do Giz é considerado um dos lugares altamente perigosos do Centro Histórico de São Luís, mesmo estando próximo às sedes dos governos estadual e municipal e pertencente a uma área sob a jurisdição de uma subprefeitura, a única na cidade. 

Ironicamente, a edificação do Palácio dos Leões teve origem no Fort Saint Louis que depois mudou de nome, mas que sempre teve como função proteger a cidade para além dos poucos metros no seu entorno. 

Podemos compreender a Praça Pedro II a partir do conceito de praças de cidades espanholas e hispanoamericanas denominadas “Plaza Mayor” ou “Plaza de Armas”. Lá, estão as sedes do governo Estadual, Municipal, o Palácio da Justiça, além da Catedral da Sé e o Palácio Episcopal. Ainda na mesma praça está a Capitania dos Portos do Maranhão, o que indicaria um local de extrema segurança. 

Na minha infância, havia uma brincadeira chamada “Pegadô”. A brincadeira iniciava sorteando-se o primeiro “pegadô”. Este corria atrás dos outros até tocar no primeiro que pudesse alcançar. Aquele que fosse tocado se tornava o próximo “pegador”, assumindo o desafio. Definia-se um ponto seguro onde ninguém poderia ser tocado, a “ganzola”. Quando alguém se sentia em apuros, corria na direção da “ganzola”. 

Já que vivemos a incapacidade de tornar esta cidade segura na região do centro e em todos os seus bairros, seria então o caso de ser instituído alguns lugares “ganzola”. O Centro Histórico seria um deles. Se assim fosse, os pais do Juninho poderiam continuar dormindo tranquilamente naquela madrugada do dia 4 de dezembro, pois sabendo que a sua criança se divertia e apreciava cultura e arte num lugar “ganzola” da cidade, estaria à salvo. Jamais uma faca (ou bala) tocaria o seu corpo. 

No entorno de minha casa no Bairro do Bequimão os assaltos são frequentes, mas na maioria das vezes ninguém quer perder tempo em registrar a ocorrência. Por isso as estatísticas se apresentam otimistas. 

Soube que enquanto Will caia sentado num degrau da escadaria, já sangrando, os assaltantes pilhavam seus bolsos e a sua pasta. Quando viram que nessa pasta só haviam desenhos, jogaram-na de lado. Tal conteúdo não tinha para eles a menor importância. Me entristeceu também esse detalhe. O artista Will teve suas obras ignoradas em seu último momento. 

Como seria bom se ao invés de assaltantes esses dois jovens de 26 e 27 anos, um deles em seu segundo homicídio, tivessem a oportunidade de caminharem na vida em outras direções. Que esses jovens fossem apreciadores de arte, aproveitassem a destreza de suas mãos e ao invés de manipularem uma faca assassina, empunhassem lápis, pinceis e tintas, enchendo o mundo de cores, arte e vida, assim como fazia Will. 

Ainda falando da nossa histórica cidade, o estudante Hildebrando foi morto na lateral do imponente prédio histórico do Arquivo Público do Estado do Maranhão. O local fica ao lado da Praça Benedito Leite, que tem ao centro a estátua desse político maranhense. Portanto, podemos dizer que Hidelbrando, assim como o jovem Thiago Bruno dos Santos morto em 2014 na Rua de Nazaré, foi morto aos pés da estátua desse ilustre maranhense que foi deputado estadual e federal, senador e governador do Maranhão.

Na base da estátua de Benedito Leite está escrito uma frase de sua autoria, quando foi governador em 1908. A frase foi proferida diante da alternativa a ele apresentada de extinção de escolas como forma de atenuar a crise das finanças do Estado. Ele disse: 

“PREFIRO CORTAR A MÃO A ASSINAR A SUPRESSÃO DA ESCOLA NORMAL OU DA MODELO.”

Acho que esta frase, que se perdeu no tempo, poderia ter sido há muitos anos resgatada pelas autoridades e adaptada para:

“PREFIRO CORTAR A MÃO A NÃO TOMAR MEDIDAS QUE EVITEM A SUPRESSÃO DE VIDAS DE ESTUDANTES E DE TODOS NESTA CIDADE”. 

Talvez assim, São Luís não chegasse em 2014 na terceira posição dentre as capitais brasileiras em número de mortes violentas intencionais. Parece que o cenário não mudará muito até o final de 2015.

“Ah! Mas o estudante estava em local de risco e às duas horas da madrugada”, dizem alguns argumentando que ele se expôs ao risco. Rebato com a seguinte pergunta: será que é normal a cidade não ser nossa todos os dias a partir de um determinado horário? Não seria esse pensamento uma aceitação da existência de um toque de recolher?

Como são belas as noites nesta cidade! Como ela fica ainda mais bela ao amanhecer! Quantas vezes no início da minha juventude eu, meu irmão Joaquim Santos, os poetas Viriato Gaspar e Valdelino Cécio e outros amigos, saíamos pelas noites até as madrugadas, tocando, cantando e declamando poemas ao som de violões. Quantas vezes eu levava nessas ocasiões minha câmera fotográfica, instrumento sem o qual minha arte não existiria, e sempre chegava em casa com ela sem nenhum problema.

O nosso repertório incluía a canção “Divino e Maravilhoso” de Caetano Veloso e Gilberto Gil. Uma das obras artísticas que representou o engajamento dos jovens na luta contra a ditadura militar.

Existe hoje a determinação de que o carnaval de 2016 de São Luís se realize durante o dia. São vários os argumentos para isto, dentre os quais o da segurança. Acho que vale a pena experimentar essa alternativa e torço muito para que dê certo. Entretanto, cabe aqui uma reflexão: até que ponto não estaria embutida nessa determinação um render-se à incapacidade de promover segurança na nossa cidade 24 horas por dia? 

Por outro lado, só para refletirmos, os assaltos à mão armada que ocorrem nas ruas de meu bairro e de que também já fui vítima, se dão à luz do dia. 

Me tocou profundamente a morte do Will. Talvez porque sou pai. Os meus dois filhos, estudantes da UFMA, têm idades próximas à do estudante Hildebrando. Minha filha já vai para o segundo filho e quero uma cidade mais humana também para os meus netos. 

Tomo a liberdade de me sentir nesse momento também pai de Will, e peço desculpas aos seus pais por mais esta usurpação do seu querido filho. Mas por ter sido seu professor, considero que ele carregava consigo algo de mim, algo que lhe repassei nas nossas aulas. Desculpem, mas me apego neste ínfimo elemento para reivindicar sobre o Will o que considero um direito adquirido. Assim me sinto ainda mais autorizado a protestar contra a sua violenta morte.

Pensando em São Luís Patrimônio Cultural da Humanidade, sugiro aos gestores: que utilizem aqueles espaços de propaganda nas traseiras dos ônibus (busdoor) para publicizarem informações de utilidade pública do tipo: 

COMO PROCEDER PRA ESCAPAR DA MORTE NO CENTO HISTÓRICO DE SÃO LUÍS, PATRIMÔNIO CULTURAL DA HUMANIDADE. 

Não vou sugerir como a primeira orientação a frase NÃO SAIR DE CASA. Até porque temos que sair de nossas casas por vários motivos, seja por qualquer necessidade, cultura e lazer que também são necessidades. Temos que sair de nossas casas também para participar de manifestações públicas como agora, nesta tarde de 17 de dezembro de 2015. 

Podemos nos sentir felizes por este encontro bonito e cheio de arte, congregando a família de Will, seus amigos, seus professores, artistas e todos que aqui vieram desejando uma cidade melhor. Hildebrando deve estar feliz por isto.

Finalizo a minha fala lembrando de uma outra tragédia ocorrida no País no mês de dezembro, só que em 1968, o famigerado Ato institucional número 5, o mais emblemático ato da ditadura militar. 

Quem diria que a altíssima letalidade de nossa cidade, Patrimônio Cultural da Humanidade, estampadas nos jornais diariamente, me faria mais uma vez evocar a música de título irônico “Divino e Maravilhoso” que cantávamos em nossas antigas caminhadas pelas noites e madrugadas desta cidade. Cito aqui de forma solta alguns de seus versos:

“Atenção ao dobrar uma esquina”, “Tudo é perigoso”, “Atenção para as janelas no alto”, “Atenção para o sangue sobre o chão”, “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”. 

HIDELBRANDO BEZERRA DE ARAÚJO JÚNIOR, PRESENTE!
WILL, PRESENTE!
JUNINHO, PRESENTE!


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