domingo, 22 de julho de 2018

Conto de vigário



É de dar alegria o aquecido momento de publicação de livros de autores maranhenses e sobre o Maranhão. Até mesmo surgiu e pegou uma livraria, a AMEI, que só comercializa estes livros. Já escrevi sobre isso e sobre o serviço que vêm prestando à produção cultural do Maranhão.

Sendo um leitor compulsivo, tenho lido todos os livros que me chegaram às mãos, nesse bendito boom editorial. Muito tem-me ajudado a encontrar essas publicações o nosso Benedito Buzar, grande historiador e autor de alguns livros que hoje já são clássicos. No conjunto de obras, uma grande quantidade de informações sobre o Estado, em especial reflexões sobre a leitura de nossa História.

Como exemplo, li agora um conjunto de estudos universitários sobre o Maranhão em tempos de República: ensaios que abordam temas que vão da política até religião. 

Notei certa sedução em alguns trabalhos de ser novidade e assimilar contestações, preconceitos e pós-verdades, para usar uma palavra que está em moda. 

Para exemplo, vejo a construção de teses sobre a fundação da cidade de São Luís por franceses como sendo um movimento associado à burguesia, e o mesmo sobre a consagração do Maranhão como Atenas brasileira, feita no século XIX, quando no Maranhão nasceram e viveram grandes nomes da literatura brasileira, como João Lisboa, Odorico Mendes, Gonçalves Dias, Sousândrade, Gomes de Sousa e muitos outros.

Ora, nada mais claro e óbvio do que a cidade ter sido fundada por franceses, embora não seja uma cidade francesa, mas em tudo portuguesa, para orgulho de todos. 

Os franceses fixaram o primeiro espaço da cidade e fizeram muito mais, o que ultrapassa todas as outras fundações de cidade e marca o Estado do Maranhão: deixaram dois livros fundamentais, o História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão, do Padre Claude d’Abeville e o Viagem ao Norte do Brasil feita em 1613 e 1614, de outro capucho, Yves d’Évreux. 

Estes livros são fontes primárias para o conhecimento dos costumes dos Tupinambás, seus ritos, suas crenças e até de como eles viam e interpretavam o cosmo.

O nome da cidade foi dado pelos franceses, o do rei santo, em homenagem ao rei menino. E, sob o signo da Cruz, deixaram para a eternidade, São Luís, em homenagem ao jovem rei da França, Louis XIII, seu descendente. 

Era tão grande a importância que davam a esse batismo que o Padre Abbeville diz que o rei o seria de três coroas: França, Navarra e Maranhão.

São livros que até hoje são objeto de estudos e estão ligados às Histórias do Brasil e da América.

Estas obras é que deram renome à cidade, ao descrever toda a aventura de sua fundação, data, cerimônias, feitos. Os franceses não deixaram a arquitetura, mas livros, e estes são para sempre.

O povo maranhense se orgulha da cultura maranhense.

Nada mais justo do que de suas origens. Mas a ideologia, num tempo em que já acabou no mundo, ainda é utilizada. 

Era a tese do leninismo de destruir tudo, para em cima das ruínas construir a revolução salvadora. 

Aqui foi o único lugar no mundo em que um governo espalhou outdoors pelo país desmoralizando o Estado, dizendo “MARANHÃO, ESTADO MAIS POBRE DO BRASIL”. Eu mesmo vi um em Brasília e fiquei indignado.

Além do dano que causou e causa até hoje à imagem do Estado, é uma fake news. Atrás da gente, há 11 Estados. Somos o 16º, à frente de Mato Grosso do Sul, localizado no Centro-Sul.

Mas é ser pra-frente fazer politicagem, destruir verdades e dizer que o Maranhão é o mais pobre Estado do Brasil e que não somos a Atenas Brasileira, mas ‘apenas’. 

Nada de ser fundada por franceses, mas pela oligarquia. Rendeu frutos essa mentira, mas a consequência é que “deu no que deu”: a grande frustração que respira o povo maranhense, enganado no conto do vigário.

José Sarney
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