terça-feira, 23 de outubro de 2018

Crianças brincavam em praça pública quando foram mortas a tiros em Santa Inês




Comunidade pacata, habitada por pessoas humildes, honestas, trabalhadoras e hospitaleiras, onde quase todos os moradores se conhecem pelo nome, e as muitas crianças e adolescentes brincam e se divertem em grupos, nos poucos espaços públicos existentes para tal fim.

Esta é a rotina da Vila Adelaide Cabral, bairro da cidade maranhense de Santa Inês, distante 250 quilômetros da capital São Luis, igual a milhares de outros bairros, vilas, morros e invasões Brasil a fora.

O FATO 

Na noite da última segunda-feira (22), como já é de costume, a única praça do bairro estava lotada de crianças e adolescentes que se divertiam em alguns brinquedos instalados no local, quando foram surpreendidos por estampidos de tiros, alguém estava atirando em direção ao local onde as crianças se divertiam. 

De repente, pânico e desespero tomaram conta da comunidade, tudo foi muito rápido, enquanto familiares corriam em direção à praça em busca de informações, outros buscavam abrigo com receio de serem alvo dos atiradores.

Duas crianças e um adolescente foram atingidos pelos tiros, Jhoniel Ribeiro Rodrigues de 7 anos, morreu no local, já Vitor Gabriel Rodrigues Barros, de 8, morreu horas depois, no Hospital Municipal Tomas Martins. O adolescente foi atingido não mão e não corre  risco de morte.

A REPERCUSSÃO 

Rapidamente a triste notícia de execução dos inocentes, Jhoniel e Vitor, invadiram as redes sociais como rastilho de pólvora, áudios, videos, imagens e comentários de todos os vieses viralizaram. Jornais, rádios e emissoras de TV, locais, regionais e nacionais destacaram a tragédia anunciada. 

A ABORDAGEM RASA

Os veículos de comunicação em sua maioria, limitaram se a reproduzir o conteúdo das redes sociais, uns poucos foram além, ouvindo a fala da policia e de parentes da vitima. Alguns ainda foram preconceituosos com a comunidade, rotulando a de "periferia", outros tantos limitaram-se ao famoso  "control C control V".  

O QUE NÃO QUESTIONARAM 

Curioso que ninguém da imprensa ouse ir além do básico: o que, quando, onde e como? e tenha coragem para questionar por quê?. 
Afinal o que vem motivando o aumento exacerbado da violência e da criminalidade em Santa Inês? 

Qual é o papel da segurança pública, do executivo, legislativo e judiciário local em toda essa grave crise? 

E  a sociedade civil organizada tem algum papel em toda essa carnificina?                  
Quem falhou e aonde? quem está sendo omisso? Quem é impotente? 

Perdemos a luta? 

Chegamos a era da barbárie? 

O Estado faliu como instituição?

As autoridades estão fazendo corpo mole e vista grossa?  

Porque as comunidades mais humildes e mais afastadas dos grandes centros do poder e de riqueza são sempre as mais atingidas e penalizadas?   

Alguém precisa responder estes questionamentos, mas; antes é preciso coloca-los na pauta do dia.  

 AS VAZIAS NOTAS DE PESAR

Um dos efeitos imediatos da grande repercussão de casos como este, são as muitas notas de pesar, vazias e sem nenhum valor prático divulgadas por personalidades e instituições, que em nada mudam, aliviam ou resolvem a gravidade da tragédia. 

CAINDO NO ESQUECIMENTO  

Dentro de poucos dias ou semanas a execução das duas crianças cairá no esquecimento popular, sairá da mídia, que estará ocupada dando destaque a um novo fato. Tudo então voltará a uma aparente normalidade. Os revoltados e comovidos com o ato de barbárie não falarão mais no caso e nada farão para mudar a situação, até que uma tragédia se abata sobre mais uma comunidade, quando o ciclo se reiniciará.  

A DOR DAS FAMÍLIAS, O MEDO E O SENTIMENTO DE IMPOTÊNCIA SÃO REAIS

As famílias atingidas e a comunidade estão marcadas para sempre, a dor dos pais não passará, ou será esquecida; o medo de deixar as crianças sair às rua, ir à escola, ou voltar à praça palco da tragédia vai aumentar com o tempo; o sentimento de insegurança e de impotência frente a violência e a criminalidade está instalado em cada individuo que viveu de perto tão dramática experiencia.

O QUE ESPERAR DO ESTADO? 

Infelizmente não é sensato esperar muito do Estado, já está provado que ele é incapaz de prevenir, proteger e garantir a segurança do cidadão. Porém após as ações criminosas a polícia tem agido com extrema  competência e agilidade na elucidação dos casos, oque de certa forma ameniza a sensação de injustiça tão comum entre os cidadãos. 

A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA E O DIRETO À VIDA SÃO CLÁUSULAS PÉTREAS 

O Direito à Vida é uma garantia fundamental explícita na Constituição Federal de 1988, no art. 5º, segundo o qual todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.
     
Conforme o Art. 7º do ECA - A criança e o adolescente têm direito a proteção à vida e à saúde, mediante a efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existência.

O PAPEL DO JORNALISMO  

Este jornalista sente a dor dos familiares das vitimas, com quem se solidariza. Em 2016 estive na comunidade, visitei a praça Cantor Evaldo Cardoso, palco das tragédia. Além do que repudio o avanço desenfreado avanço da violência que atinge em cheio e vitimiza os mais pobres, humildes e carentes. 

Órfãos do Estado, os desassistidos e desamparados agora são também desiludidos. Vale reproduzir a fala de Eduardo Galeano: "Quem são os carcereiros, quem são os cativos? Poder-se-ia dizer, que de algum modo, todos nós estamos presos. Os que estão dentro das prisões e os que estão fora delas".

John Donne, um grande poeta inglês que morreu em 1631, escreveu:

“Nenhum homem é uma ilha; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio; a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

Portanto, quem ouvir o dobrar de sinos em qualquer lugar, não pergunte por quem dobram, simplesmente eles dobram pelos indiferentes.

*Abimael Costa, 53; jornalista.
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