segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O drama da saúde pública no Maranhão é uma tragédia silenciosa


DRAMA DA SAÚDE PÚBLICA (Parte I).

Por *Abdon Marinho

DEPOIS da tragédia de Brumadinho (MG), que ceifou, quase que instantaneamente, a vida de centenas de pessoas, tudo pareceu menor ou irrelevante. O próprio termo “tragédia”, parece haver ganhado uma maior amplitude. Aguardo coragem para escrever um texto sobre o tema, apesar do “tudo” que já foi dito.Antes de Brumadinho, porém, uma cena me chamou a atenção. Acho que um ou dois dias antes daquela tragédia que os canais de televisão exibiram o drama privado de uma senhora tendo que deslocar em uma maca pelas ruas da cidade o seu pai enfermo. 

Não sei o nome da senhora ou do seu pai que, tomei conhecimento, veio a óbito. 

As cenas de profundo desespero, entretanto, me vieram à lembrança após receber áudios e imagens de um protesto que ocorria no Município de Matões do Norte que interditou por um bom tempo a BR 135, principal via de acesso a capital. 

O fechamento do hospital regional naquela urbe, sem qualquer aviso aos profissionais e/ou mesmo aos munícipes os levaram a pensar tratar-se do encerramento definitivo das atividades da unidade o que, segundo os mesmos, traria sérios prejuízos ao atendimento médico-hospitalar de dezenas de municípios e econômicos àquele, em particular. 

Ainda segundo os moradores e alguns servidores o que os responsáveis da Empresa Maranhense de Serviços Hospitalares - EMSERH, informaram foi que estavam, de fato, fechando o hospital, razão pela qual ocorreu a revolta popular. 

A narrativa de que haverá apenas uma paralisação por curto período e que os protestos não tinham qualquer sentido, sendo mais o fruto da “doidice” ou de uma histeria coletiva, passou a circular somente quando o movimento revoltoso já provocava estragos palpáveis e um engarrafamento de quase 5 km na BR. 

Em todo caso, até agora, seja no site do governo ou da própria Secretaria de Estado da Saúde - SES, não consta um esclarecimento objetivo sobre os motivos do fechamento da unidade e por quanto tempo ela permanecerá fechada “para reformas”. 

Quem sou eu para perquirir qualquer coisa, mas não deixa de ser curioso que um governo tão afeito a propagandear, até com certo exagero, “inauguração de ordem de serviço” e disponha em orçamento uma pequena fortuna para a comunicação, deixe de esclarecer a população sobre assuntos relativos às suas reais angústias. 

A maior angústia da população hoje é a saúde pública – ou a sua falta –, pois sabem, os cidadãos, que dela depende suas vidas.

Não faz muito tempo fui abordado em Luís Domingues por um cidadão: — doutor, o senhor está sabendo que vão municipalizar o Hospital Regional de Carutapera? Doutor, se fizerem isso será um caos para nós desta região, ‘Carutapera’ não dá conta nem de atender sua população, como vai atender toda região? Muita gente vai morrer por falta de atendimento. É ruim, não tem ‘nada’, mas será pior se deixarem por conta do município. 

Até hoje não sei se há fundo de verdade na suposta municipalização do Hospital Regional de Carutapera e, caso tenha havido, se se confirmou o “caos” vaticinado por aquele senhor.

O que se sabe é que o Estado não tem conseguido manter sua rede pública de saúde com um padrão mínimo de qualidade, bem como pagar a produção das unidades sob responsabilidade dos municípios. 

Outro dia o prefeito de Bequimão me reclamava que Estado não vem honrando com o pagamento regular da produção do hospital localizado naquele município e que atende toda a região, há muito tempo, o que tem “estrangulado” as finanças municipais para manter o hospital aberto, calculando em alguns milhões seu crédito junto a SES.

É certo também que muitos hospitais construídos nos municípios estão fechando e outros nem seque chegaram a ser abertos. Os que “teimam” em manter as portas abertas não recebem de forma regular o que foi acordado com o governo estadual.

Aliás, uma das principais reclamações dos municípios em relação a Atenção Básica é a falta da contribuição do estado. Relatam que a Atenção Básica é mantida unicamente com os recursos federais e dos municípios. 

Não bastasse isso, por conta da nossa ligação com o setor, nos chegam informações dando conta do fechamento de diversas outras unidades e/ou serviços. 

Só nos últimos dias me deram conta que na UTI Cardiopediátrica do Hospital Carlos Macieira, os médicos “entregaram” o serviço devido a falta de pagamento e/ou redução do contrato, o que culminará com fim do serviço de cirurgias cardíacas de crianças, caso não se chegue a solução do impasse. 

Antes já tinha sido informado do fechamento da UPA de Chapadinha; da redução do número de médicos nas UPA’s de São Luís; do fim do serviço de ortopedia da UPA Araçagy; do fechamento do Centro de Especialidades Médicas - CEMESP; do fechamento da Maternidade Maria do Amparo, em São Luís; do fechamento da UTI neonatal e pediátrica do hospital macrorregional de Coroatá e outros problemas menores (mais graves)m como a falta de condições mínimas para os profissionais exercerem sua missão de salvar vidas e diminuir ou eliminar sofrimentos. 

E nem vamos falar na já crônica falta de medicamentos especiais nas unidades públicas e na farmácia do estado. 

Isso só as informações que me chegam, que se forem verdadeiras, já causam uma enorme deficiência nos serviços públicos de saúde do Maranhão.
Não faz muito tempo, um litígio com os médicos que ameaçavam com paralisação de suas atividades por falta de pagamento só foi resolvido na Justiça, com aqueles profissionais cedendo e aquiescendo em esperar um pouco mais para receber seus salários. 

Diante de todos estes fatos, me parece fora de ordem que governador venha, mais uma vez, fazer proselitismo com a propalada inauguração do canteiro de obras do futuro hospital de urgências de São Luís – uma promessa de campanha do seu aliado, Edivaldo Holanda Júnior, desde a campanha de 2012, que na época, e na propaganda, até deram o nome de Jackson Lago –, quando não consegue manter a rede ou serviços já existentes. 

É constrangedor para as pessoas de bem ter que assistir ao “festejo” de uma promessa cujo o início chega com meia década de atraso enquanto testemunha o vem ocorrendo em todos os cantos do estado com a saúde pública. 

Não temos a menor dúvida da necessidade deste novo hospital de urgências e emergências para a capital, isso é pacífico, entretanto, quer me parecer que o governo atual acha mais fácil e conveniente trabalhar em cima de um sonho que nem sabe se será concretizado no seu governo do que enfrentar a dura realidade de manter em funcionamento regular a rede hospitalar e os serviços já existentes sob sua responsabilidade. 

Só posso achar que para as autoridades faz mais sentido, e deve ser mais interessante, a foto ao lado da maquete - e com todos os recursos digitais –, que a dura realidade dos pacientes em macas ou no chão frio dos corredores, da falta de atendimento, das macas circulando pelas ruas ou da procissão de ambulâncias que tanto prometeram extinguir. 

O drama da saúde pública no estado está longe de acabar, é uma tragédia silenciosa que vai ceifando a vida de milhares de maranhenses pela falta de atendimento médico ou porque falta “tudo” nas unidades onde são atendidos. 

No próximo texto explanarei sobre uma das ideias para minorar essa tragédia anunciada. 

Abdon Marinho é advogado.
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