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Quem herdará os mortos da pandemia?


Por Abdon Marinho

LEMBRAVA daquela famosa “tirada” do ex-deputado Marcony Farias por ocasião da sua inquirição na CPI da Pistolagem, na Assembleia Legislativa do Maranhão, ainda pelos idos dos anos noventa.

Já contei o episódio aqui em algum texto. Para os que não lembram ou não tiveram a oportunidade de ler, narrarei – mas de forma mais resumida –, o episódio.

Já era final da tarde, começo da noite, quando, no auditório Fernando Falcão, da Assembleia Legislativa, que ainda funcionava no antigo prédio da Rua do Egito, começou a oitiva do ex-deputado.

O inquiridor era o então deputado Aderson Lago.

O deputado Aderson Lago inicia a inquirição: — Senhor deputado, o senhor sabe quem é Fulano de tal?

— Sei, sim, muito meu amigo. Já morreu. Responde Marcony Farias.
— E Sicrano de tal?

— Também conheci, muito meu amigo, mas já morreu.

— E o Beltrano dos Anzóis?

— Ah, esse era filho seu Sicrano, muito meu amigo, também morreu.

E sim foi por quase uma dúzia de nomes, o deputado Aderson Lago perguntando e o ex-deputado Marcony Farias respondendo que conhecera, que fora amigo, que morrera...

Todos os mortos – ou quase todos –, por óbvio, tinham ligações com crimes de pistolagem e tinham morrido, invariavelmente, de morte violenta.
O deputado Aderson Lago, pergunta em conclusão: — Deputado Marcony Farias, o senhor não acha muita coincidência que todos estes seus amigos estejam mortos?

O ex-deputado Marcony Farias, responde com sua inigualável presença de espírito: — Acho não, senhor deputado. Tanto assim que tenho mais amigos vivos que mortos.

O auditório lotado naquele fim de tarde foi ao delírio com a resposta espirituosa do ex-deputado.
Pois bem, lembrei de tal episódio para tratar do avanço da pandemia do novo coronavírus no Brasil, o seu significativo número de óbitos, e a única resposta que será possível às autoridades do país quando forem cobradas lá adiante.

Não como a tirada espirituosa do ex-deputado Marcony Farias, mas com o cinismo tão característico dos dias atuais, poderão dizer que não morreram assim tantos brasileiros por conta da pandemia, afinal, “escaparam” mais brasileiros vivos do que morreram.

Aguardem que ainda nos depararemos com este tipo de resposta.

O Brasil enfrenta um momento difícil, talvez o mais difícil em mais de uma centena de anos.

Já ocupávamos o segundo lugar em número de contágio – só perdendo para os Estados Unidos –, com quase um milhão de infectados e o terceiro em número de óbitos. Agora, passando na casa dos quarenta mil óbitos, somos o segundo também neste item, só perdendo para a nação já referida acima.

Os estudiosos – que têm acertado quase todas suas projeções –, informam até a data em que possivelmente ultrapassaremos a nação norte-americana, tanto no número de infectados: será no dia 29 de julho.

Nesta fatídica data futura os Estados Unidos contará com 137 mil óbitos e o Brasil a ultrapassará com 137.500 óbitos. Ou seja, daqui a pouco mais de um mês ao número de mortos que temos hoje, será acrescido cerca de 150% (cento e cinquenta por cento) novos óbitos.

Não significa que vamos parar aí, apenas que ultrapassaremos os Estados Unidos e que continuaremos a perder milhares de vidas de brasileiros até a pandemia arrefecer.

Até aqui tudo que um país podia fazer de errado para combater uma pandemia o nosso país fez, e pior, continua fazendo.

Estamos na décima segunda (ou terceira) semana de pandemia e, enquanto a maioria dos países que fizeram o “dever de casa” na sexta semana os casos começavam arrefecer e curva se achatar, aqui continuamos com a curva de contágio em ascensão.

Com tudo que já fizeram de errado e com estes prognósticos tão desfavoráveis as autoridades chegaram a “consenso macabro”, contrariando orientação de quem entendo assunto decidiram que é a hora do “liberou geral” ou, noutras palavras, “salve-se quem puder”.

A única coisa de positivo – se é que podemos ter algo de positivo em meio a tanta tragédia –, é a nossa curva de cura que, também, é bastante ascendente, tendo inclusive ultrapassado o número de casos ativos.

Mas isso não minora a nossa irresponsabilidade na condução desta crise.

Enquanto morriam dezenas de pessoas na Ásia diziam que não chegaria aqui; quando avançou pela Europa e pelos Estados Unidos, negavam a existência do vírus ou minimizavam, com o vírus já matando no país, diziam que era exagero que não havia nada demais, em seguida que deveríamos nos conformar.

Há poucos dias, enquanto a Nova Zelândia anunciava que havia curado o derradeiro infectado e banido o vírus do arquipélago, no Brasil a polêmica da vez era divulgar ou não ou como divulgar o número de mortos e infetados pelo novo coronavírus.

Já se contava mais de trinta mil óbitos e a polêmica era essa. Milhares de pessoas no país sofrendo pela perda de seus entes queridos e as autoridades fazendo “cavalo de batalha” sobre o formato de divulgação das estatísticas. Esquecendo que por trás de cada morto tem uma família, tem amigos, tem pessoas que perderam alguém amado.

Passando dos quarenta mil óbitos, menos de uma semana depois, a polêmica foi a “recomendação” de “invasão” de hospitais para verificar tratamentos e se as pessoas estão morrendo ou não ou se os leitos hospitalares estão desocupados ou não.

Há poucos dias um ex-quase-futuro servidor do Ministério da Saúde – que está sem titular há mais de mês –, deu a brilhante ideia de se fazer o censo dos mortos pela pandemia.

Com a notícia estapafúrdia de alguém que ainda não era nada (e acabou não sendo) no “jogo do bicho”, a população, principalmente, as pessoas que perderam seus parentes e amigos, ficou escandalizada com a possibilidade desta dor adicional, supondo que fossem desenterrar os mortos para checar se, de fato, o morto fora vítima ou não da covid-19.

A elas não bastariam ficar afastadas dos seus entes durante o tratamento, não poderem fazer um velório – se bem que vimos pessoas oferecendo velórios no câmbio paralelo –, teriam que testemunhar a violação de suas sepulturas para confirmar a “causa mortis” e servirem de bandeiras políticas.

Vejam o absurdo ao qual chegamos: no ano em que não conseguimos fazer o censo decenal por conta de uma pandemia, alguém propõe o “censo fúnebre” dos mortos da pandemia – e isso é levado a sério. Pessoas discutem, acham relevante.

A impressão que tenho é que o Brasil – muito além do que teria dito de Gaulle (Charles André Joseph Marie de Gaulle, ex-primeiro-ministro francês), que o país não seria sério –, virou um imenso hospício, onde se minimizam mortes e o sofrimento alheio, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Recebo, vez ou outra, informações anônimas, com quadros comparativos entre o número de mortos no Brasil e na Europa levando em consideração o número de habitantes e mortos como a quererem justificar que nossas dezenas de milhares de mortos fossem pouco, se comparados a nossa população de 210 milhões de habitantes.

Há pouco mais de dois meses o próprio presidente da República, nas suas redes sociais, por onde se comunica com seu público, fez essa comparação estúpida, quando o número de mortos no Brasil era oito por milhão de habitantes. Hoje já são duzentos por milhão.

Outros, abusando da crueldade, quando não negam, justificam que a morte pela pandemia alcançou um idoso, um obeso, um cardiopata, um renal crônico, um transplantado, etc., como se a abreviação da vida destas pessoas – que teriam mais cinco, dez, quinze ou vinte anos com os seus –, não tivesse importância alguma.

Como se o cara merecesse morrer por ser gordinho, por ter uma doença ligada s obesidade, por ter um problema renal ou cardiovascular, por ser idoso, etc.

Outro dia soube que alguém do Ministério da Economia teria saudado como promissora está pandemia porque “aliviaria” o déficit previdenciário.

Achei a notícia tão absurda que não fui checar – temendo que fosse verdadeira.
Muito além da pandemia, o Brasil sofre de uma grave doença moral.

É como se a nação, por suas conveniências políticas e/ou ideológicas, fosse formada por sociopatas.
Algum dia, talvez quando isso tudo passar, teremos um encontro com a verdade que irá cobrar a responsabilidade de cada um nesta pandemia.

Quantas mortes poderiam ter sido evitadas e não foram? Quantos lares ficaram órfãos pela leniência ou irresponsabilidade das autoridades? Quem será ou serão ou responsáveis?

Vejo que muitas autoridades – e seus seguidores –, já buscam apontar o dedo para os outros, inclusive para as vitimas (a sociedade), querendo fugir à própria responsabilidade.

Ainda não é a hora do julgamento, mas todos serão julgados: pelas urnas, por suas consciências, pelo tribunal da história e por Deus.

A todos estes não lhes valerão o argumento de escaparam mais do que morreram.

Algum dia saberemos quem herdará os mortos desta pandemia.

Abdon Marinho é advogado.



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Clinica Santo André

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