quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Manoel da Conceição, presente!


Morreu nesta quarta-feira, 18, em Imperatriz, aos 85 anos, Manoel da Conceição Santos. o líder camponês e sindical, estava internado há cerca de quatro semanas em uma UTI do hospital macrorregional.na terça-feira (17), foi intubado após adquirir uma broncopneumonia aguda com sangramento.

Hoje a luta pela reforma agrária perde um dos mais bravos lutadores dos últimos 60 anos, que atravessou a brutalidade da ditadura militar-empresarial, período que foi torturado, deixando sequelas em sua vida. Contudo, esse bravo lutador, que fez sua passagem hoje, traduz, sem dúvida, a história de inúmeros movimentos e entidades da luta pela reforma agrária, que podem ser expressos nas Ligas Camponesas, sindicatos rurais, CPT, MST, na luta da agricultura camponesa, dos quilombos, dos povos indígenas.


Sabemos que durante os anos 1950 e 1960, principalmente no Nordeste, importantes lutas emergiram buscando terra e dignidade. A reação das forças oligárquicas e empresariais, em ação direta com as forças estatais de repressão, foi da mais bárbara atuação. Manoel, em livro Depoimento Sobre a Vida e as Lutas de Camponeses no Estado do Maranhão* , ao tratar das lutas em um município do Maranhão, em meados da década de 1950, apresenta um doloroso e cruel relato. Ele diz que:

“o fundo da casa que ficou cercada pelos jagunços, meteram bala. Mataram cinco pessoas dentro da casa, a sangue frio. Todos rapazes, tudo novo. Uma senhora velhinha, que tinha mais ou menos setenta anos, viu os gritos do filho dela morrendo na peixeira, na faca, encostado assim na parede. Correu de joelhos, pedir para aquele desgraçado do Manacé não matar o filho.

E ele já estava morto. Manacé só fez soltar o rapaz no chão. Deu um tapa perto do pescoço, jogou a velhinha no chão, cravou-lhe a faca nas costas até entrar na terra. A mulher dava gritos, a faca entrando. E uma criança gritava assim: "Papai! Papai! Papai! pelo amor de Deus". A criança tinha entre três e quatro anos. Um dos jagunços pegou nos pés desse menino, atirou numa parede e lascou a cabeça dele de meio a meio. Ficou miolo ali na sala espalhado, ali pela terra, ali no chão, o chão da caca, chão de barro”.

Manoel da Conceição traduz o último grande representante de uma tradição que tem em Gregório Bezerra, Margarida Alves, Chico Mendes Francisco Julião, padre Josimo, padre Maurício, irmã Dorothy, dentre outras e outros, mártires que tombaram lutando por terra, água, natureza, pão, dignidade. E que sabiam que “se calarem a voz de um profeta, as pedras falarão”, como as Comunidades Eclesiais de Base sempre cantavam. Essa tradição continua firme nesses dias, em cada um e cada uma que luta contra as cercas da exploração, opressão, humilhação e dominação.

Venceremos as cercas, com resistência. Descanse, grande Manoel da Conceição!

A Resistência/PSOL se solidariza com a família, amigos e companheiros de luta!

Manoel da Conceição, presente!

* Fonte: CONCEIÇÃO, Manuel da. Depoimento Sobre a Vida e as Lutas de Camponeses no Estado do Maranhão. In.: GALANO, Ana Maria. Essa Terra é Nossa. Petrópolis/RJ: Vozes. 1980.


NOTA DE PESAR

O Governo do Maranhão lamenta o falecimento do líder camponês e sindical Manoel da Conceição Santos. Natural do município de Coroatá, Manoel da Conceição morreu nesta quarta-feira (18), aos 86 anos, após quatro semanas internado na UTI do Hospital Macrorregional de Imperatriz, com o quadro de broncopneumonia aguda.

Manoel Conceição Santos foi um dos maiores articuladores da luta camponesa em resistência ao regime militar no país. Começou organizando o sindicato de trabalhadores rurais no Vale do Pindaré, posteriormente contribuiu na organização de entidades importantes no cenário nacional como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (CENTRU).

Neste momento de dor, o Governo do Maranhão se solidariza com os familiares, amigos e admiradores.




Manoel da Conceição Santos é lembrado como um dos maiores articuladores da luta camponesa em resistência ao regime militar no Brasil. O líder sindical começou organizando o sindicato de trabalhadores rurais no vale do Pindaré, depois contribuiu na organização de entidades importantes no cenário nacional como a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (CENTRU).

Boa parte da trajetória de Manoel da Conceição foi marcada pela resistência à ditadura militar após o golpe de 1964. O líder camponês passou a ser visto pelo governo como um subversivo e ficou preso por mais de três anos, foi torturado diversas vezes, até que se refugiou em Genebra, na Suíça. Na Europa, realizou diversas palestras e debates com o apoio da Anistia Internacional e demais entidades dos direitos humanos.

Manoel da Conceição quase concorreu ao cargo de governador do estado de Pernambuco. Em 1994, lançou-se candidato ao Senado pelo PT do Maranhão, mas não foi eleito.
Trajetória

Manoel da Conceição nasceu no dia 24 de julho de 1935, em um povoado chamado Pedra Grande, que pertencia ao Município de Coroatá no Estado do Maranhão, em uma família evangélica que frequentava a Assembleia de Deus.

Em 1955, sua família foi expulsa das terras em que viviam há décadas pela viúva do antigo proprietário que tinha prometido que eles poderiam ficar naquelas terras para sempre.

Depois disso, foram morar em Bacabau do Mearim, em terras devolutas, de onde, em 1956, também foram expulsos por um latifundiário que criava gado.

Em 1958, sua família chegou à cidade de Pindaré-Mirim, município situado 177 km ao sul de São Luís. Em 1960, participou de um curso do Movimento de Educação de Base (MEB), que tinha como temas: sindicalismo, política e cooperativismo.

Com a ajuda de outros trabalhadores rurais criaram 28 escolas com o intuito de alfabetizar os trabalhadores da região de Pindaré.

Nesse processo, ajudou a criar o primeiro sindicato de trabalhadores rurais do Estado do Maranhão, fundado em 18 de agosto de 1963, em Pindaré-Mirim, do qual seria o primeiro presidente. Em pouco tempo, o sindicato chegou a aglutinar cerca de quatro mil trabalhadores rurais.

Na época do Golpe Militar de 1964, presidia o sindicato ajudara a criar. Logo após o golpe, o Exército ocupou a sede da entidade por 60 dias, naqueles dias, cerca de duzentos trabalhadores rurais da região foram presos e depois liberados.

Apesar da repressão, em 1968, o sindicato tinha 4 mil filiados, quando, no dia 13 de julho, a polícia invadiu a sub-sede do sindicato em Anajá, na ocasião Conceição foi baleado na perna direita e novamente preso. Depois de seis dias na prisão, sem tratamento médico, parte da perna gangrenou e teve que ser amputada.

Na época, José Sarney, que era o governador do Maranhão, eleito pela UDN, lhe ofereceu vantagens materiais para que mantivesse o silêncio, mas Conceição se recusou e respondeu com uma frase que ficou famosa: “Minha perna é minha classe”.

Para recuperar-se, contou com o apoio dos seus companheiros da Ação Popular, que conseguiram recursos para a obtenção de uma prótese mecânica em São Paulo, o que tornou possível o seu retorno a Pindaré.

Mas antes de retornar à Pindaré, esteve na República Popular da China, entre 1969 e junho de 1970.

No início da década de 1970, centenas de pessoas foram presas na região de Pindaré-Mirim e, no dia 2 de janeiro de 1972, Manoel Conceição foi novamente preso, em Trufilândia, e levado para a Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Luís.

Em 24 de fevereiro, foi levado para o quartel da Polícia do Exército no bairro da Tijuca no bairro do Rio de Janeiro, onde foi torturado. Depois foi levado para o Centro de Informações da Marinha (Cenimar), onde foi torturado inclusive nos órgãos genitais. Após sete meses de tortura, foi levado para Fortaleza, onde foi apresentado à Auditoria Militar, em setembro de 1972.

Em maio de 1975, foi julgado na Auditoria Militar, em Fortaleza, e condenado a três anos de prisão. Depois de libertado, pois já havia ficado preso por mais de três anos na época da sentença, foi acolhido pelo arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio Lorscheider, então presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que providenciou sua viagem para São Paulo, onde o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor presbiteriano Jaime Wright o internaram no Hospital Santa Catarina.

Devido à tortura, urinava através de sonda e ficou impotente por anos. Depois de um mês de tratamento no hospital, ele foi para a casa do padre Domingos Barbé, em Osasco. Na manhã de 28 de outubro de 1975, policiais o levaram para o DEOPS paulista, onde foi novamente torturado.

As torturas só foram interrompidas, porque o Papa Paulo VI enviou um telegrama ao general Ernesto Geisel, pedindo por sua vida e exigindo libertação. Desse modo, em 11 de dezembro de 1975, foi libertado e colocado sob a proteção da Anistia Internacional, que providenciou seu partida para Genebra, na Suíça, em março de 1976.

Depois de chegar em Genebra, ajudou no trabalho de estabelecer contatos entre diversos sindicalistas brasileiros que estavam exilados na Europa.

Em outubro de 1979, pouco após a publicação da Lei da Anistia, retornou ao Brasil para se engajar no processo de fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). No momento da fundação, foi a terceira pessoa a se filiar ao partido. Foi o primeiro presidente do PT no Estado de Pernambuco, onde, em 1982, foi candidato a governador.

Em Pernambuco, ajudou a fundar o Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (CENTRU).

Em 1986, retornou ao Maranhão e foi residir em Imperatriz até os dias de hoje.

Com informações do blog do John Cutrim*

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