O menino que nasceu na chuva
Corria o ano de 1965, o mundo vivia sob a tensão da Guerra Fria, o Brasil ainda aprendia a respirar sob o peso recente da ditadura instalada em 31 de março de 1964.
Newton Bello governava o Maranhão, o marechal Castelo Branco ocupava a Presidência da República.
Enquanto isso, os discos giravam nas vitrolas do planeta: The Beatles reinventavam a juventude, Elis Regina cantava com a alma, Roberto Carlos embalava corações, Gilberto Gil surgia como promessa, Jerry Adriani e os Demônios da Garoa já eram sucesso. O mundo fervilhava.
Mas o mundo também era pequeno e , naquele primeiro de fevereiro de 1965, ele cabia inteiro no povoado de Livramento.
Livramento era silêncio. chão de barro, rua vazia, noite fechada. Naquela segunda-feira chuvosa, o povoado dormia cedo, embalado pelo som insistente da chuva e pelos trovões que rasgavam o céu como avisos antigos. O vento passava forte, como quem sabe segredos.
Na segunda casa da hoje chamada Rua da Bomba, uma casa humilde, pequena, coberta de palha, chão batido, iluminada apenas por lamparinas alimentadas a querosene, ninguém dormia.
Ali morava um casal recém-casado. Ele, lavrador, quarenta e quatro anos, conhecido por todos como Antônio Gago. Ela, jovem, apenas dezoito anos, filha de lavrador, Raimunda de Antônio Gago.
A casa estava desperta, tensa, iluminada mais pelo medo do que pela luz fraca das lamparinas. Além do casal, uma presença essencial: irmã Anja, a parteira de Livramento. Mulher de mãos firmes e olhar experiente, guardiã de nascimentos num tempo em que a ciência ainda não alcançava o interior das casas simples.
Raimunda estava grávida do primeiro filho. Não havia pré-natal, ultrassom, exames ou certezas. Não se sabia sequer o sexo da criança.
Desde o início da manhã as dores vinham e iam, como ondas. A noite caiu, a chuva apertou, e às oito horas da noite, sob um temporal que parecia lavar o mundo, nasceu um menino. Mas o menino não chorou.
O silêncio que se seguiu foi mais assustador do que qualquer trovão. A parteira fez as manobras possíveis, soprou vida, chamou pelo choro que não vinha. O tempo pareceu suspenso. O coração dos pais apertou.
Então veio a orientação antiga, quase um ritual: esperar vinte e quatro horas. Se resistisse, tinha vingado. O menino vingou!
Dias depois, foi levado ao cartório de Coroatá. Recebeu um nome grande demais para um recém-nascido de chão batido e lamparina: Abimael da Costa Pereira. Nome pomposo, desses que parecem carregar destino.
Talvez ali, naquela noite de chuva, enquanto o mundo discutia ideologias, músicas e revoluções, tenha acontecido uma revolução silenciosa.
Um nascimento simples, quase anônimo, mas cheio de significado. Porque é assim que a vida faz história: não nos palácios, nem nos jornais, mas nas casas pequenas, nas noites chuvosas, quando um menino insiste em viver.
Jornalista Abimael Costa, 61

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